União Soviética instalou faróis atômicos automatizados para viabilizar a navegação na Rota Marítima do Norte
A União Soviética instalou faróis atômicos automatizados com geradores de radioisótopos para a navegação na Rota Marítima do Norte. Após a dissolução do país, a falta de vigilância causou corrosão e saques, gerando focos de contaminação radioativa. Desde 1997, a Noruega coordena a remoção desses dispositivos e a substituição por painéis solares
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A União Soviética implementou um sistema de faróis atômicos automatizados para viabilizar a navegação na Rota Marítima do Norte, ao longo da costa do Ártico. O projeto visava iluminar a região, caracterizada por temperaturas extremas, escuridão e presença de gelo, eliminando a necessidade de operadores humanos permanentes em locais de difícil acesso.
A costa norte da Rússia, que se estende por 24.140 km no oceano Ártico, serve como via estratégica entre a Europa e a Ásia. Com a expansão industrial do século XX, o tráfego marítimo aumentou nos períodos de degelo, tornando a manutenção de faróis isolados financeiramente inviável e logisticamente complexa devido aos invernos rigorosos.
A tecnologia dos geradores RTG
Para solucionar a questão energética, engenheiros soviéticos utilizaram geradores termoelétricos de radioisótopos (RTG). Diferente de usinas ou reatores nucleares, esses dispositivos convertem o calor proveniente da desintegração radioativa em eletricidade. Essa mesma base tecnológica foi aplicada em missões espaciais de longa distância, como as sondas Voyager, Cassini e New Horizons.
Enquanto os Estados Unidos utilizavam o plutônio-238, a versão soviética empregava resíduos de combustível nuclear, como o césio-137, estróncio-90 ou cério-144. As especificações técnicas desses equipamentos incluíam:
- Potência: até 80 watts;
- Tensão: entre 7 e 30 volts;
- Autonomia: de 10 a 20 anos de funcionamento sem supervisão.
Abandono e riscos radioativos
A dissolução da União Soviética em 1991 expôs as fragilidades do design econômico do sistema. Nas regiões de Arcangelo e Múrmansk, no noroeste da Rússia, restaram cerca de 200 faróis alimentados por RTG, além de outras unidades em quantidade não contabilizada na costa ártica oriental.
A falta de vigilância e a crise econômica subsequente resultaram na corrosão dos equipamentos e em saques por metais. O que deveria ser uma solução autônoma transformou-se em focos de contaminação radioativa dispersos por territórios remotos.
A Agência Internacional de Energia Atômica registrou episódios críticos envolvendo esses materiais. Em 1999, um RTG roubado foi localizado em uma parada de ônibus em Kingisepp, próxima à fronteira com a Estônia. Em 2001, no vale do rio Inguri, na Geórgia, três lenhadores encontraram objetos cerâmicos que emitiam calor; dois deles sofreram queimaduras graves e desenvolveram a doença por radiação.
Recuperação e substituição
A partir de 1997, a Noruega coordenou a retirada desses dispositivos no noroeste russo. Ao longo de dez anos, aproximadamente 60 RTG foram removidos da península de Kola e substituídos por painéis solares e baterias de níquel-cádmio.
Um dos marcos desse período é o farol de Aniva, na ilha de Sajalin. A estrutura permanece abandonada após a remoção de seu núcleo radioativo, realizada em 2006.