Universidade de Cambridge desenvolve vacina criada por inteligência artificial para proteger contra diversas famílias de coronavírus
Pesquisadores da Universidade de Cambridge e a empresa DIOSynVax desenvolveram a pEVAC-PS, vacina de DNA projetada por inteligência artificial para proteger contra diversas famílias de coronavírus. Testes de fase I com 39 voluntários no Reino Unido confirmaram a segurança do imunizante e indicaram aumento de anticorpos em doses mais altas. O método de aplicação ocorre via microfluido de alta pressão e a substância permanece estável em temperatura ambiente
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Pesquisadores da Universidade de Cambridge desenvolveram a pEVAC-PS, uma vacina projetada por inteligência artificial para oferecer proteção contra famílias inteiras de vírus, superando a limitação de atuar apenas contra cepas específicas. A tecnologia, criada pela empresa DIOSynVax, utilizou algoritmos de aprendizado de máquina para analisar dados genéticos globais e identificar pontos conservados em coronavírus — regiões que o vírus não pode alterar sem perder a capacidade de infectar. O resultado é um superantígeno artificial que, embora não exista na natureza, concentra características comuns a todo o grupo viral.
A proposta é tornar o desenvolvimento de imunizantes proativo, antecipando-se a mutações e protegendo o organismo contra variantes futuras ou novos coronavírus, inclusive aqueles que ainda não saltaram de animais para humanos. Essa abordagem busca romper o ciclo de atualizações constantes de vacinas, como ocorreu com o SARS-CoV-2, o SARS (2002) e o MERS (2012), vírus que causaram surtos significativos, sendo que a pandemia de COVID-19 registrou mais de 7 milhões de mortes entre 2020 e 2023.
A pEVAC-PS opera via DNA, diferenciando-se das plataformas de RNA mensageiro ou proteínas. Uma instrução genética é inserida nas células humanas para que o próprio corpo fabrique o antígeno artificial, estimulando a produção de anticorpos. A administração ocorre sem agulhas, por meio do dispositivo PharmaJet Tropis, que utiliza microfluido de alta pressão para injetar a dose na pele. Por ser baseada em DNA, a vacina apresenta maior estabilidade térmica, podendo ser mantida em temperatura ambiente, o que facilita a logística em regiões com infraestrutura de saúde limitada.
Entre dezembro de 2021 e setembro de 2023, a vacina passou por um ensaio clínico de fase I no Reino Unido, envolvendo 39 voluntários saudáveis, com idades entre 18 e 50 anos, todos previamente vacinados contra a COVID-19. Os participantes foram divididos em quatro grupos, recebendo doses de 0,2 mg, 0,4 mg, 0,8 mg e 1,2 mg em duas etapas com intervalo de 28 dias. O estudo confirmou a segurança do imunizante, sem a ocorrência de reações graves ou eventos inesperados; os efeitos colaterais foram leves ou moderados.
Quanto à resposta imunológica, os resultados foram parciais. Devido ao nível prévio de anticorpos dos voluntários, a medição da proteção adicional foi complexa. No entanto, o grupo que recebeu a dose de 1,2 mg apresentou um aumento estatisticamente significativo de anticorpos específicos ao antígeno da vacina, e as doses mais altas mostraram um incremento modesto na neutralização de variantes como Delta e Ómicron BA.1.
Embora a vacina não tenha gerado a resposta cruzada ampla esperada entre o SARS-CoV-2 e o SARS-CoV-1, a análise sanguínea revelou que os anticorpos reconheceram regiões conservadas do vírus, incluindo áreas que anticorpos neutralizantes costumam bloquear. Para os autores do estudo, publicado no Journal of Infection, isso valida o conceito de design da vacina, embora a potência da resposta precise de aprimoramento.
A estratégia computacional utilizada poderá ser expandida para outras famílias virais, como a gripe e o Ébola. O próximo estágio do projeto prevê ensaios de fase II com grupos maiores e mais diversos para validar a magnitude e a duração da resposta imune, visando reduzir a dependência de reformulações vacinais a cada nova onda viral.