Uso ritualístico de cinábrio causou contaminação por mercúrio em cidades da antiga civilização maia
Estudo publicado na Science Advances identificou alta contaminação por mercúrio em sedimentos de lagos nas cidades maias de Coba e Xcach, no México. O uso ritualístico de cinábrio poluiu solos e águas entre 125 d.C. e 820 d.C., afetando a fauna aquática e a saúde humana. A toxicidade ambiental é apontada como um fator de estresse adicional no colapso da civilização
O uso ritualístico de cinábrio, um mineral vermelho composto majoritariamente por mercúrio, resultou em uma contaminação ambiental severa e duradoura em cidades da antiga civilização maia. Um novo estudo, publicado na revista Science Advances, indica que a toxicidade do mineral se espalhou pelo solo e corpos d'água, afetando a fauna aquática e possivelmente a saúde humana.
Concentrações de mercúrio em Yucatán
A pesquisa analisou amostras de sedimentos coletadas no fundo de lagos em dois sítios arqueológicos na península de Yucatán, no México: a cidade de Coba e a localidade de Xcach. Os dados revelaram algumas das maiores concentrações de mercúrio já registradas no período maia, expandindo o conhecimento sobre a poluição em planícies do norte da região, onde os registros eram escassos.
Em Coba, os pesquisadores identificaram um pico de contaminação que começou por volta de 250 d.C. e persistiu por aproximadamente 150 anos, coincidindo com o início do Período Clássico, a era de ouro da civilização. Já em Xcach, o padrão de poluição ocorreu em três etapas:
- Um primeiro pico entre 125 d.C. e 200 d.C.;
- Um segundo período simultâneo ao observado em Coba;
- Um terceiro intervalo, entre 535 d.C. e 820 d.C., estendendo-se até o fim do Período Clássico.
Impactos ambientais e saúde pública
O mineral, utilizado pelos maias em templos, murais e ritos funerários por representar a alma, a vida e o sangue, infiltrou-se nos ecossistemas locais. O estudo documenta que esses níveis de toxicidade ultrapassaram amplamente os limites estabelecidos pelas regulamentações modernas de poluição e toxicologia durante séculos.
A contaminação foi letal para diversos organismos aquáticos. Embora os registros de sedimentos não comprovem a ingestão direta, a movimentação trófica do metal sugere que a população maia pode ter sido exposta ao mercúrio através do consumo de peixes ou da água contaminada. No organismo humano, a substância é capaz de provocar danos graves ao coração, pulmões, rins, cérebro e ao sistema nervoso central.
Fator de estresse no colapso maia
O abandono e o colapso de grandes cidades maias ao final do Período Clássico são tradicionalmente atribuídos a guerras e mudanças climáticas. A nova evidência científica posiciona o envenenamento por mercúrio como um fator de estresse adicional.
Ainda que a pesquisa não estabeleça um vínculo direto e exclusivo entre a poluição química e o declínio das cidades, ela acrescenta a toxicidade ambiental à lista de pressões que atingiram a civilização simultaneamente durante a Era Clássica.