Ciência

Uso ritualístico de cinábrio causou contaminação por mercúrio em cidades da antiga civilização maia

07 de Novembro de 2026 às 06:01 3 min de leitura

Estudo publicado na Science Advances identificou alta contaminação por mercúrio em sedimentos de lagos nas cidades maias de Coba e Xcach, no México. O uso ritualístico de cinábrio poluiu solos e águas entre 125 d.C. e 820 d.C., afetando a fauna aquática e a saúde humana. A toxicidade ambiental é apontada como um fator de estresse adicional no colapso da civilização

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O uso ritualístico de cinábrio, um mineral vermelho composto majoritariamente por mercúrio, resultou em uma contaminação ambiental severa e duradoura em cidades da antiga civilização maia. Um novo estudo, publicado na revista Science Advances, indica que a toxicidade do mineral se espalhou pelo solo e corpos d'água, afetando a fauna aquática e possivelmente a saúde humana.

Concentrações de mercúrio em Yucatán

A pesquisa analisou amostras de sedimentos coletadas no fundo de lagos em dois sítios arqueológicos na península de Yucatán, no México: a cidade de Coba e a localidade de Xcach. Os dados revelaram algumas das maiores concentrações de mercúrio já registradas no período maia, expandindo o conhecimento sobre a poluição em planícies do norte da região, onde os registros eram escassos.

Em Coba, os pesquisadores identificaram um pico de contaminação que começou por volta de 250 d.C. e persistiu por aproximadamente 150 anos, coincidindo com o início do Período Clássico, a era de ouro da civilização. Já em Xcach, o padrão de poluição ocorreu em três etapas:

  • Um primeiro pico entre 125 d.C. e 200 d.C.;
  • Um segundo período simultâneo ao observado em Coba;
  • Um terceiro intervalo, entre 535 d.C. e 820 d.C., estendendo-se até o fim do Período Clássico.

Impactos ambientais e saúde pública

O mineral, utilizado pelos maias em templos, murais e ritos funerários por representar a alma, a vida e o sangue, infiltrou-se nos ecossistemas locais. O estudo documenta que esses níveis de toxicidade ultrapassaram amplamente os limites estabelecidos pelas regulamentações modernas de poluição e toxicologia durante séculos.

A contaminação foi letal para diversos organismos aquáticos. Embora os registros de sedimentos não comprovem a ingestão direta, a movimentação trófica do metal sugere que a população maia pode ter sido exposta ao mercúrio através do consumo de peixes ou da água contaminada. No organismo humano, a substância é capaz de provocar danos graves ao coração, pulmões, rins, cérebro e ao sistema nervoso central.

Fator de estresse no colapso maia

O abandono e o colapso de grandes cidades maias ao final do Período Clássico são tradicionalmente atribuídos a guerras e mudanças climáticas. A nova evidência científica posiciona o envenenamento por mercúrio como um fator de estresse adicional.

Ainda que a pesquisa não estabeleça um vínculo direto e exclusivo entre a poluição química e o declínio das cidades, ela acrescenta a toxicidade ambiental à lista de pressões que atingiram a civilização simultaneamente durante a Era Clássica.

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