Ciência

Vírus do molusco contagioso carrega gene humano adquirido há cerca de 100 mil anos

30 de Setembro de 2026 às 15:01 3 min de leitura

Pesquisadores da Universidade Cornell identificaram que o vírus do molusco contagioso incorporou o gene humano BC200 há cerca de 100 mil anos. O estudo, publicado na revista Science, indica que o vírus utiliza esse fragmento genético para controlar a produção de proteínas da célula infectada

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Vírus do molusco contagioso carrega gene humano adquirido há cerca de 100 mil anos
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Pesquisadores liderados pelo biólogo Cedric Feschotte, da Universidade Cornell, identificaram que o vírus do molusco contagioso carrega em seu material genético o gene humano BC200. A descoberta, detalhada na revista Science, indica que esse fragmento de DNA foi adquirido de ancestrais humanos há aproximadamente 100 mil anos.

O vírus em questão, um parente distante da varíola que infecta exclusivamente seres humanos e provoca pequenas lesões cutâneas — especialmente em crianças —, apresenta mutações no gene que não existem na versão transmitida entre pessoas. A análise dessas alterações permitiu estimar o tempo de captura do material genético.

Mecanismo de captura e permanência

A incorporação de genes do hospedeiro por vírus ocorre devido a falhas no processo de replicação viral. Quando um vírus assume a maquinaria de uma célula para produzir cópias de si mesmo, trechos do DNA da célula podem ser acidentalmente integrados ao novo material genético viral.

No caso do BC200, a estrutura da molécula de RNA produzida por esse gene facilita sua inserção em fragmentos de DNA, processo que já gerou 178 cópias do gene no próprio genoma humano ao longo de milhões de anos. Os cientistas acreditam que um mecanismo similar tenha permitido a transferência para o vírus.

Um dado relevante é a ausência de exemplares do vírus do molusco contagioso que não possuam o BC200. Para a equipe de Feschotte, a permanência do gene por milênios sugere que ele oferece uma vantagem evolutiva ao invasor.

Nova função biológica

Enquanto no cérebro humano o BC200 produz uma molécula de RNA que possivelmente regula a velocidade de produção de proteínas, a versão viral parece ter assumido uma função distinta. A hipótese é que o vírus utilize o gene para interferir na tradução (produção de proteínas) da célula infectada.

Esse processo é parte de uma disputa biológica:

  • A célula: Ao detectar a infecção, tenta desligar suas fábricas de proteínas para impedir a replicação do vírus.
  • O vírus: Utiliza proteínas da célula hospedeira para reativar essa produção.

Acredita-se que o gene humano capturado atue como uma ferramenta para o vírus do molusco contagioso controlar a produção proteica, facilitando a infecção do organismo.

Implicações evolutivas

O achado destaca a capacidade de fragmentos genéticos atravessarem espécies e permanecerem funcionais por longos períodos. O estudo levanta a possibilidade de que outros genomas virais também escondam transferências semelhantes de genes humanos, embora a frequência desse fenômeno ainda seja desconhecida.

Esse tipo de erro molecular, embora neste caso beneficie o vírus, pode ter impactos na saúde pública em outros contextos. Vírus que infectam bactérias, por exemplo, podem transportar genes de resistência a antibióticos entre microrganismos, acelerando a propagação de bactérias resistentes.

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