Apostas eletrônicas causaram perda de R$ 143 bilhões no comércio varejista entre 2023 e 2026
O comércio varejista perdeu R$ 143 bilhões entre janeiro de 2023 e março de 2026 por inadimplência ligada a apostas eletrônicas. O cenário levou 270 mil famílias ao atraso de pagamentos superior a 90 dias. O IBJR e a ANJL contestam os dados divulgados pela CNC
O comércio varejista perdeu R$ 143 bilhões entre janeiro de 2023 e março de 2026 devido à inadimplência de consumidores motivada por apostas eletrônicas. O montante subtraído do setor equivale ao volume de vendas registrado nos períodos natalinos de 2024 e 2025. Nesse intervalo, os gastos mensais dos brasileiros com as plataformas de apostas cresceram mais de R$ 30 bilhões.
O comprometimento da renda para o pagamento de dívidas levou 270 mil famílias à inadimplência severa, caracterizada por atrasos superiores a 90 dias. A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) aponta que o endividamento impacta a capacidade de consumo, resultando no sacrifício de gastos essenciais e não essenciais, como a compra de roupas ou a troca de aparelhos celulares.
A vulnerabilidade aos efeitos das apostas varia conforme o perfil demográfico. Homens, pessoas com idade acima de 35 anos, indivíduos com escolaridade de nível médio ou superior e famílias com renda de até cinco salários mínimos são os grupos mais afetados. Para as famílias de maior renda, as apostas funcionam como substitutas de outras formas de endividamento, embora também resultem em atrasos de pagamentos e inadimplência.
Atualmente, 80,4% das famílias brasileiras estão endividadas, índice próximo aos 78% registrados no fim de 2022. Entre 2019 e aquele ano, a proporção de famílias com dívidas subiu quase 20 pontos percentuais. Diante desse cenário, o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, defende a criação de políticas públicas de regulação para as plataformas e a implementação de medidas de proteção ao consumidor, com foco especial na publicidade.
Em resposta, o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) notificou formalmente a CNC para exigir transparência metodológica e acesso integral às bases de dados utilizadas na análise, que combinou informações da entidade com dados do Banco Central. O IBJR classifica as conclusões como alarmistas e afirma que as premissas divergem das métricas oficiais. No mesmo sentido, a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) contesta os números, argumentando que eles não condizem com os dados do governo e do setor, além de ignorarem que o endividamento dos brasileiros possui natureza multifatorial.