Brasil e Estados Unidos negociam tarifas de importação com prazo final para 15 de julho
O governo brasileiro negocia com os Estados Unidos a aplicação de tarifas de importação que podem atingir 37,5%, com prazo final em 15 de julho. O Ministério das Relações Exteriores nega a existência de barreiras ao comércio americano, enquanto o senador Flávio Bolsonaro realiza articulações independentes com o USTR
A aplicação de tarifas extras sobre importações brasileiras, que podem chegar a 37,5%, é vista por economistas e empresários como uma medida sem fundamentação técnica, inclusive na visão de técnicos dos Estados Unidos. O consenso entre esses setores é que a implementação do "tarifaço" dependeria exclusivamente de uma decisão política do presidente Donald Trump.
Embora a maior parte dos argumentos favoreça a posição brasileira, setores específicos da economia norte-americana, como os de etanol e pecuária, defendem a taxação. O governo do Brasil, por meio do Ministério das Relações Exteriores, enviou observadores às audiências públicas do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), mas optou por não discursar no evento, sob a justificativa de que o espaço não é destinado a negociações oficiais.
As tratativas reais ocorrem em canais técnicos e de alto nível. Recentemente, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Marcio Elias Rosa, reuniu-se com Jamieson Greer, representante do USTR, com novas conversas agendadas. O governo brasileiro já apresentou uma proposta de encaminhamento sobre os pontos questionados pelos EUA, mas ainda aguarda resposta formal. O prazo final para a conclusão de um acordo é 15 de julho.
Em resposta formal à investigação, o ministro Mauro Vieira, das Relações Exteriores, afirmou que o USTR não comprovou a existência de práticas discriminatórias ou barreiras ao comércio americano. O documento sustenta que as críticas dos EUA ao sistema PIX e a decisões do Judiciário brasileiro referem-se a divergências de políticas internas, sem relação com o comércio. Internamente, o Palácio do Planalto e o Itamaraty avaliam que a recomendação do USTR ignora argumentos técnicos apresentados no último ano e possui caráter político, estimando que a solução seja a redução das tarifas ou a criação de exceções, e não a reversão total da medida.
Paralelamente às negociações governamentais, o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República, atua de forma independente ao Itamaraty em articulações com o governo Trump. Em depoimento presencial e em inglês ao USTR, o senador manifestou-se contra a tarifa de 25% e contra sanções ligadas ao PIX, argumentando que tais medidas prejudicariam exportadores brasileiros e consumidores americanos, além de beneficiarem o atual governo.
Flávio Bolsonaro propôs a criação de um mecanismo de negociação bilateral com cronograma definido, abrangendo seis áreas: tarifas, desmatamento, etanol, propriedade intelectual, corrupção e comércio digital. Ele defende que a distância entre os EUA e um governo "reformista" seria menor do que a atual.
A atuação do senador gera apreensão entre produtores de açúcar e etanol, que temem concessões excessivas, já que o parlamentar antecipou em carta ao USTR a possibilidade de ceder nesses setores. Aliados e apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro esperam que o senador ajuste seu discurso para evitar que declarações sejam utilizadas pelo presidente Lula em campanha eleitoral, especialmente após o governo classificar a carta enviada por Flávio como "entreguista".
A equipe do presidente Lula busca neutralizar a narrativa de que o Brasil não quer negociar com Donald Trump, reiterando que a administração americana tem ciência das tratativas em curso e que as falas do senador possuem caráter político voltado ao eleitorado interno.