Brasil ocupa a quarta posição mundial em desigualdade patrimonial segundo relatório do banco UBS
O Brasil é o quarto país mais desigual em patrimônio, com 386 mil milionários e 69% da população adulta com até R$ 51 mil. Relatórios da Oxfam e do UBS associam essa concentração à influência de pessoas ricas na política e ao sistema tributário. Nas eleições de 2022, milionários detiveram 55% das vagas no Senado

O Brasil ocupa a quarta posição mundial em desigualdade patrimonial, encerrando 2025 com aproximadamente 386 mil milionários em dólares, conforme dados do Global Wealth Report 2026, do banco suíço UBS. Em contrapartida, 69% da população adulta do país permanece na base da pirâmide socioeconômica, com patrimônio médio de até R$ 51 mil.
Embora tenha havido a saída de quase 9 milhões de pessoas da linha da pobreza, a estrutura de desigualdade persiste, sustentada por uma blindagem jurídica e ideológica, além de um sistema tributário que onera mais a base da pirâmide do que o topo.
A relação entre riqueza e poder político
Um relatório publicado nesta quarta-feira (19) pela Oxfam Brasil, intitulado Um Retrato das Desigualdades Brasileiras: Poder, Privilégio e a Captura da Democracia, aponta que a concentração de renda é ampliada pela predominância de pessoas ricas na política. Esse cenário permite que detentores de riqueza influenciem agendas públicas e criem regulamentações que dificultam a distribuição de recursos.
Essa dinâmica é fruto de um processo histórico que envolve a concentração fundiária e o legado da escravidão, permitindo que classes dominantes reorganizem privilégios em diferentes ciclos de modernização. O estudo indica que a desigualdade no Brasil transcende a questão monetária, consolidando-se como um projeto de poder que impacta a equidade do sistema eleitoral.
Disparidades no Legislativo e representatividade
A análise de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revela que o patrimônio privado é um fator determinante para o acesso a mandatos públicos. Nas eleições de 2022, 45% dos eleitos para a Câmara dos Deputados possuíam patrimônio superior a R$ 1 milhão, com forte concentração entre os homens.
No Senado Federal, a barreira financeira é ainda mais evidente:
- Candidatos com até R$ 100 mil: Representavam 7% dos concorrentes, mas nenhum foi eleito.
- Candidatos entre R$ 100 mil e R$ 1 milhão: 12 foram eleitos.
- Candidatos com mais de R$ 1 milhão: 15 foram eleitos.
Embora representassem 38% dos concorrentes, os milionários conquistaram 55% das 27 vagas disponíveis no Senado.
A desigualdade também é nítida em termos de gênero e raça. Nas eleições de 2024, apenas 13,2% dos municípios elegeram prefeitas, e nas capitais, apenas duas mulheres venceram os pleitos. Na Câmara dos Deputados (eleições 2022), 82,3% dos eleitos são homens. No Senado, a disparidade é maior: 80% dos parlamentares são homens (65) e menos de 20% são mulheres (16).
Captura institucional e impacto social
A concentração de poder não se limita ao voto, estendendo-se ao Judiciário, a postos decisórios do Executivo e a colegiados técnicos. O perfil predominante nesses cargos é de homens brancos e ricos, o que gera uma "captura institucional" da soberania.
Esse modelo afeta desproporcionalmente populações vulneráveis, como indígenas, quilombolas, mulheres negras e moradores de periferias, que financiam o Estado por meio de impostos sobre o consumo essencial enquanto a gestão dos recursos públicos permanece concentrada.
Fatores globais e novas pressões econômicas
O fenômeno da concentração de riqueza é global. A Oxfam internacional reportou que a fortuna dos bilionários cresceu US$ 2,5 trilhões no último ano, atingindo o recorde de US$ 18,3 trilhões. Nesse contexto, indivíduos super-ricos têm uma probabilidade 4.000 vezes maior de ocupar cargos políticos do que cidadãos comuns.
Complementarmente, o World Inequality Report 2026 indica que os 10% mais ricos do mundo ganham mais do que os outros 90%, enquanto a metade mais pobre da população global detém menos de 10% da renda.
No Brasil, a falta de regulamentação de big techs e bets agrava o cenário. O estudo classifica essas corporações como engrenagens de extração econômica e controle social, que aproveitam a reorganização dos mercados para maximizar lucros.
Limites das políticas atuais e soluções
A Oxfam Brasil critica a dependência de políticas de transferência de renda, argumentando que, embora necessárias, elas não enfrentam os mecanismos fiscais que protegem o patrimônio dos super-ricos. Para reverter a desigualdade, os pesquisadores sugerem quatro eixos de atuação:
- Promoção de transparência e igualdade tributária.
- Defesa de uma participação política livre de interesses corporativos.
- Busca por representatividade da diversidade social no Congresso.
- Implementação de controle social efetivo sobre conselhos e gastos públicos.