Economistas defendem tributação de altas rendas para conter o crescimento da dívida pública brasileira
Economistas publicaram manifesto contra cortes de gastos, atribuindo a alta da dívida pública aos juros reais. O grupo propõe a antecipação da tributação mínima de 10% para rendas anuais acima de R$ 600 mil e a substituição do arcabouço fiscal. O documento solicita a interrupção de altas da taxa Selic e a alteração da meta de inflação para 4,5%

Economistas e especialistas publicaram, nesta sexta-feira (30), um manifesto que contesta a pressão do mercado financeiro por cortes de gastos públicos para a estabilização da dívida pública. O grupo defende que o endividamento do país, que saltou de 71,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022 para 82,9% em agosto deste ano, é impulsionado pelos juros reais e não pelas despesas da União.
De acordo com dados do Banco Central (BC), os juros consumiram mais de R$ 1,1 trilhão do orçamento público nos últimos doze meses, o que equivale a 8,9% do PIB. O documento destaca que esse montante é mais de catorze vezes superior ao déficit primário, registrado em R$ 82 bilhões. Sobre a inflação de setembro, que atingiu 4,58%, os signatários argumentam que a alta foi provocada por choques em alimentos e energia, fatores que a taxa Selic não é capaz de corrigir.
Tributação de altas rendas e incentivos fiscais
Como alternativa ao ajuste fiscal em áreas sociais, o manifesto propõe a antecipação para o próximo ano da tributação mínima de 10% para pessoas com rendimentos anuais superiores a R$ 600 mil. A medida, prevista na Lei 15.270 de 2025, teria vigência apenas para a declaração de 2027.
Os especialistas sugerem que, se aprovada até 31 de dezembro, a nova tributação passaria a valer em janeiro, incidindo sobre:
- Dividendos (atualmente isentos de Imposto de Renda);
- Juros sobre capital próprio;
- Aplicações isentas.
O texto defende ainda a revisão de regimes especiais, isenções e incentivos, que totalizam R$ 612,8 bilhões em gastos tributários.
Revisão da meta de inflação e taxa Selic
O grupo solicita que o Banco Central interrompa novas altas da taxa Selic, fixada atualmente em 13,75% ao ano, e implemente mecanismos para que a redução dos juros beneficie famílias e empresas de pequeno e médio porte.
Há também a proposta de alterar a meta de inflação, definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). O manifesto sugere:
- Retomar o centro da meta em 4,5%, patamar vigente entre 2005 e 2018 (atualmente está em 3%);
- Eliminar a carência de 36 meses para a mudança da meta, criada em 2024;
- Ampliar o horizonte de convergência e priorizar o pleno emprego.
Novo regime fiscal e investimentos
Os economistas defendem a substituição do atual arcabouço fiscal por uma nova regra, a ser votada no Congresso Nacional ainda este ano. O modelo vigente limita o crescimento real das despesas a 2,5% ao ano e a 70% do crescimento da receita, o que, segundo o manifesto, conflita com os pisos de saúde e educação.
A proposta de lei complementar sugere a exclusão dos seguintes itens dos limites fiscais:
- Investimentos públicos e aportes em estatais e no BNDES;
- Bolsa Família;
- Pisos constitucionais de saúde e educação.
O grupo argumenta que as regras atuais impedem projetos de reindustrialização e transição ecológica.
Críticas ao ajuste fiscal e cenário político
O documento critica a postura de membros do governo, como o ministro da Fazenda, Dario Durigan, que defendem o ajuste fiscal. Os especialistas citam que, entre 2024 e 2025, o aperto orçamentário coincidiu com a elevação da Selic de 10,5% para 15%, resultando em uma queda na avaliação positiva do governo, que recuou de 36% para 24%.
O manifesto menciona que o ajuste fiscal de 2015 contribuiu para a recessão econômica da época e alerta que, diante de um Congresso com 121 deputados do PL e 49 senadores de direita a partir de fevereiro, a repetição de medidas de austeridade pode fragilizar a base de apoio popular da reeleição de Lula.
O texto é assinado por docentes da Unicamp (Pedro Paulo Zahluth Bastos e Simone Deos), da Universidade de Brasília (Maria de Lourdes Rollemberg Mollo), da Universidade Federal Fluminense (Juliane Furno) e da Queen’s University Belfast (Alfredo Saad Filho).