Estagnação de benefícios sociais pode reduzir a atividade econômica em municípios fora de regiões metropolitanas
Estudo da FEA-USP indica que a falta de valorização real de benefícios sociais e previdenciários reduziria a renda agregada de municípios fora de regiões metropolitanas entre 6,8% e 10,8%. A ausência de reajustes entre 2022 e 2025 teria levado cerca de 2,7 milhões de pessoas à pobreza no interior do país

A estagnação ou a redução de benefícios sociais e previdenciários pode provocar uma retração severa na atividade econômica de municípios brasileiros localizados fora de regiões metropolitanas. Um levantamento do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da FEA-USP, indica que a renda agregada nessas localidades ficaria entre 6,8% e 10,8% abaixo do patamar atual caso não houvesse a valorização real de auxílios como o Bolsa Família, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e as aposentadorias.
O impacto é mais acentuado no interior do país devido à dependência financeira dessas transferências. Dos 5.569 municípios do Brasil, cerca de 4 mil estão fora de áreas metropolitanas, onde o peso dos recursos públicos chega a ser o dobro do registrado nos grandes centros urbanos. No Ceará, por exemplo, enquanto a capital e sua região metropolitana têm 22% de sua renda agregada proveniente desses benefícios, nas cidades do interior esse índice sobe para 40%.
Impactos regionais na renda
A análise do Made/USP comparou a evolução da renda entre 2022 e 2025 — período de crescimento real para aposentadorias e BPC — com o cenário de congelamento e ausência de ganhos reais do salário mínimo observado entre 2019 e 2022.
A projeção revela disparidades regionais significativas em caso de ausência de reajustes:
- Queda de 17% a 18%: Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí.
- Queda de 15%: Amazonas, Sergipe e Pernambuco.
- Queda de 10% a 13%: Ceará, Maranhão, Alagoas e Bahia.
- Queda de 6,5%: São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Essa redução na renda gera um efeito cascata que compromete a atividade econômica local, afetando inclusive famílias que não dependem diretamente de auxílios governamentais.
Agravamento da pobreza
Para famílias com rendimento per capita de até 1,5 salário mínimo, os benefícios sociais podem representar até 50% do orçamento. Nesse contexto, qualquer reajuste inferior à inflação empurra essas populações para a linha da pobreza.
Simulações do estudo apontam que a falta de ganhos reais nos benefícios entre 2022 e 2025 teria levado aproximadamente 2,7 milhões de pessoas à pobreza em municípios do interior, sendo que 2,4 milhões delas estariam em situação de extrema pobreza.
Em termos absolutos, o aumento da pobreza seria mais expressivo nos seguintes estados:
- Bahia: até 336 mil pessoas.
- São Paulo: até 263 mil pessoas.
- Minas Gerais: até 251 mil pessoas.
- Maranhão, Pará e Ceará: mais de 200 mil pessoas cada.