Europa precisa de 600 bilhões de euros para reduzir disparidade tecnológica com EUA e China
A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, afirma que a Europa precisa de 600 bilhões de euros em dez anos para reduzir a defasagem tecnológica frente a EUA e China. A medida visa elevar a produtividade em 4% para compensar a redução da força de trabalho e diminuir a dependência de infraestruturas externas. Para o financiamento, foi proposta a criação de uma União de Poupança e Investimento
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A Europa necessita de um investimento de aproximadamente 600 bilhões de euros nos próximos dez anos para reduzir a disparidade tecnológica em relação aos Estados Unidos e à China. O alerta foi feito por Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), durante o debate "Hofburg em Diálogo", em Viena, onde a executiva defendeu a aceleração do desenvolvimento de Inteligência Artificial (IA) como pilar para a sustentabilidade do modelo social do continente.
Produtividade e Impacto Fiscal
A urgência no investimento estratégico decorre de um cenário demográfico crítico: a previsão é que a força de trabalho europeia diminua mais de um milhão de pessoas anualmente nos próximos 25 anos. Para compensar essa redução e proteger as finanças públicas, Lagarde aponta que a adoção rápida da IA pode elevar a produtividade em até 4% em uma década.
Esse índice supera a estimativa do relatório Draghi (2024), que indicava que um crescimento de 2% na produtividade seria suficiente para cobrir um terço dos custos fiscais de investimentos estratégicos na região. Atualmente, os instrumentos orçamentários da União Europeia apresentam um déficit anual superior a 100 bilhões de euros no setor público para essas finalidades.
Dependência Tecnológica e Infraestrutura
O cenário atual revela uma forte dependência externa. Enquanto os Estados Unidos detêm 75% da capacidade global de computação de IA, a Europa concentra apenas 5%. Em termos de desenvolvimento de modelos, o continente possui apenas duas iniciativas (uma na França e outra no Reino Unido), contrastando com os 59 modelos dos EUA e 35 da China.
A presidente do BCE detalhou três riscos fundamentais na importação de tecnologia estrangeira:
- Privacidade e Segurança: O processamento de dados sob jurisdições externas expõe a indústria europeia a riscos de concorrência, ataques cibernéticos e perda de informações.
- Soberania de Infraestrutura: A dependência de fornecedores externos para a gestão de hospitais, pagamentos bancários, trens e fronteiras concede a terceiros um poder de negociação excessivo e gera vulnerabilidade em caso de interrupções.
- Competitividade Setorial: Em áreas como defesa, finanças e indústria farmacêutica, a liderança tecnológica tende a ser permanente para quem detém a vantagem inicial.
Estratégias de Financiamento e Soberania
Para que a Europa se torne um elo indispensável na cadeia global — a exemplo da holandesa ASML no mercado de microchips —, Lagarde defende o fomento a modelos nacionais, como os da francesa Mistral.
A executiva ressaltou que o volume de capital necessário não pode provir apenas de empréstimos bancários, exigindo a entrada de capital de risco (equity) capaz de absorver prejuízos iniciais. Como solução, propôs a criação de uma União de Poupança e Investimento, que mobilizaria os 1,4 trilhão de euros economizados anualmente pelas famílias europeias. A medida visa eliminar preferências nacionais e direcionar recursos para a produtividade e a autonomia tecnológica do bloco.