Foxconn planeja transformar unidade em Jundiaí em polo de veículos elétricos para a América Latina
A Foxconn planeja transformar sua unidade em Jundiaí, São Paulo, em um polo de produção de veículos elétricos para a América Latina. A operação utilizará a plataforma modular aberta MIH e o modelo de fabricação sob contrato
A Foxconn, gigante taiwanesa com receita global superior a US$ 200 bilhões anuais, planeja transformar sua unidade em Jundiaí, no interior de São Paulo, em um polo de produção de veículos elétricos para a América Latina. A empresa pretende aplicar ao setor automotivo o modelo de fabricação sob contrato, sistema já utilizado na montagem de iPhones, iPads e consoles para marcas como Apple, Sony e Nintendo. Nesse formato, a Foxconn assume a engenharia, a gestão da fábrica e a montagem, enquanto as marcas parceiras ficam responsáveis pelo design, marketing e comercialização.
A base dessa operação é a plataforma modular MIH (Mobility in Harmony), desenvolvida pela companhia em conjunto com um ecossistema de mais de 2.700 empresas globais de semicondutores, baterias e software. Diferente de plataformas fechadas, como a MEB da Volkswagen, a MIH é aberta, permitindo que qualquer empresa — de startups a marcas de moda ou tecnologia — lance veículos com identidade própria sobre a mesma estrutura mecânica e eletrônica. A versatilidade do sistema já foi comprovada com três protótipos: o SUV Model C, o sedã de luxo Model E e o ônibus elétrico Model T.
A expansão para o setor automotivo já possui execuções globais. Em Taiwan, a montagem do Model C começou via parceria com a Yulon Motor para a marca Luxgen, com entregas iniciadas em 2024. Na Tailândia, há um acordo com a estatal PTT para uma fábrica com capacidade de 50 mil unidades anuais, e na Arábia Saudita, a empresa atua com o fundo soberano PIF para a marca Ceer. Nos Estados Unidos, a Foxconn adquiriu a planta da Lordstown Motors em Ohio e firmou contratos com a INDI EV e a Fisker.
A escolha de Jundiaí baseia-se na infraestrutura existente desde 2005 e na localização estratégica, situada a 60 km de São Paulo e com acesso facilitado ao aeroporto de Viracopos e ao porto de Santos. Para a companhia, o Brasil representa a principal porta de entrada na América Latina, sendo o maior mercado automotivo da região, com vendas anuais superiores a 2 milhões de veículos.
Apesar do potencial, a implementação enfrenta barreiras estruturais. A carga tributária brasileira é elevada e programas de incentivo, como o Mover, ainda priorizam motores híbridos e flex. Além disso, a ausência de produção de células de bateria de lítio em escala no país obriga a dependência de importações asiáticas, embora existam reservas do mineral no Vale do Jequitinhonha (MG). Para mitigar isso, a solução pode envolver parcerias com empresas como LG Energy Solution e CATL.
Caso o projeto se concretize, a indústria automotiva nacional passará por uma mudança estrutural. A democratização da produção via plataforma MIH permitiria a entrada de novos players no mercado sem a necessidade de investimentos bilionários em fábricas. Para as montadoras tradicionais, como Toyota, Hyundai, GM, Fiat e Volkswagen, o movimento cria um cenário duplo: a concorrência com novos entrantes e a possibilidade de utilizar a Foxconn como fornecedora de sistemas embarcados e componentes eletrônicos.