Governos europeus reduzem gastos públicos para conter a alta nos custos de títulos da dívida
Governos de França, Itália e Reino Unido reduziram gastos públicos para conter a alta nos custos de títulos públicos. A França planeja cortar € 43 bilhões no déficit, a Itália reduziu verbas de defesa em € 8 bilhões e o Reino Unido propôs o fim da proteção das aposentadorias. A União Europeia rejeitou flexibilidade orçamentária para Grécia e Itália visando a estabilidade fiscal

Governos de potências europeias iniciaram um movimento de prudência fiscal após a disparada nos rendimentos (yields) e nos custos de juros dos títulos públicos. A pressão dos investidores, que levou as taxas a patamares máximos em décadas, forçou recuos orçamentários em Londres, Paris e Roma, reacendendo alertas sobre a estabilidade da dívida na região.
A volatilidade foi intensificada pela queda nos preços dos títulos em economias avançadas, impulsionada por pressões inflacionárias ligadas à crise energética no Oriente Médio. Na França, o prêmio de risco dos papéis de 10 anos em relação aos títulos alemães atingiu o nível mais alto desde 2011. O efeito de contágio também elevou o spread da Itália, evidenciando a fragilidade de sua volumosa dívida pública.
Ajustes orçamentários e pressões políticas
A França implementou um plano de € 43 bilhões (US$ 48,3 bilhões) para reduzir o déficit público de 5,4% para 5% do PIB no próximo ano. Paralelamente, a pré-candidata Marine Le Pen sinalizou compromisso com a responsabilidade fiscal, propondo a redução do déficit para 3,7% até 2027 e desistindo de tentar derrubar o governo por questões orçamentárias para 2027, sob a justificativa de evitar crises repentinas no mercado de títulos.
Na Itália, a primeira-ministra Giorgia Meloni reagiu ao alargamento do spread com um corte de até € 8 bilhões em gastos de defesa. O governo italiano revisou a destinação para a área militar para 0,6% do PIB ao longo de dois anos, reduzindo a meta anterior de 0,9%.
No Reino Unido, onde as taxas da dívida alcançaram máximos históricos, o primeiro-ministro Andy Burnham propôs o fim do regime de "proteção tripla" (triple lock) das aposentadorias. A medida busca transmitir estabilidade aos investidores, especialmente após a precificação atual dos títulos incorporar um prêmio de risco de 30 pontos-base, reflexo da instabilidade gerada pela gestão de Liz Truss.
Disciplina de mercado e governança
A União Europeia, por meio do comissário de Finanças Valdis Dombrovskis, rejeitou pedidos de maior flexibilidade orçamentária da Grécia e da Itália, enfatizando a necessidade de rigor fiscal diante da turbulência nos títulos. O cenário contrasta com a postura de Washington, onde há menor preocupação política com a aceleração da dívida pública.
Bancos centrais têm reforçado a necessidade de credibilidade. O economista-chefe do BCE, Philip Lane, alertou que os governos devem aceitar a nova realidade das taxas de juros, enquanto Andrew Bailey, do Banco da Inglaterra, defendeu que a política fiscal foque na estabilidade.
A memória da renúncia de Liz Truss, após 44 dias no cargo devido a uma crise financeira, serve como referência para os formuladores de políticas europeus sobre os riscos de ignorar a disciplina imposta pelos mercados financeiros. Enquanto isso, a Bélgica segue sem acordo orçamentário, apesar de seu elevado endividamento.