Nobel de Economia afirma que inteligência artificial não tem provocado desemprego em massa na macroeconomia
Christopher Pissarides afirma que a IA atua como assistência ao trabalhador e não gera desemprego em massa. A tecnologia impulsiona vagas em robótica e análise de dados, mas concentra 60% dos investimentos em polos de elite. O economista defende a reformulação do ensino para adaptar profissionais ao mercado

A Inteligência Artificial (IA) não tem provocado desemprego em massa na macroeconomia, atuando prioritariamente como ferramenta de assistência ao trabalhador em vez de substituição de mão de obra. A análise é de Christopher Pissarides, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2010, que observa que as demissões em massa no setor de tecnologia, embora ganhem visibilidade, são irrelevantes diante do cenário econômico global.
Enquanto setores tecnológicos enfrentam ajustes, áreas tradicionais como a construção civil apresentam aumento na demanda. Paralelamente, a IA impulsiona a criação de novas vagas em segmentos de robótica, manutenção, segurança, análise de dados de programas e equipamentos.
Impactos na qualificação e desigualdade regional
A urgência por aprendizado contínuo varia conforme a natureza da ocupação. Pesquisas lideradas por Pissarides indicam que profissionais de tecnologia são os mais impactados pela obsolescência rápida de suas habilidades, necessitando de novos treinamentos após oito anos no cargo. Em contrapartida, categorias ligadas ao cuidado humano e educação, como enfermeiros e professores, não sofreram alterações drásticas nas competências exigidas no mesmo período.
No entanto, a IA promove uma centralização de riqueza. Cerca de 60% dos investimentos na tecnologia concentram-se em polos de elite e grandes metrópoles, a exemplo do eixo Londres-Oxford-Cambridge, no Reino Unido. Esse movimento aprofunda a disparidade econômica entre os centros urbanos e as regiões periféricas ou do interior.
Riscos salariais e reforma educacional
Setores imunes à automação, como a hotelaria e a enfermagem, enfrentam o risco de estagnação salarial. Por dependerem do contato humano e não registrarem ganhos de produtividade via algoritmos, essas profissões tornam-se dependentes de repasses governamentais para garantir remunerações adequadas.
Para mitigar esses impactos, Pissarides defende a reformulação do ensino, combatendo a especialização precoce. A estratégia de sobrevivência no mercado de trabalho atual consiste em "aprender a aprender", integrando as ciências exatas a uma base sólida em humanidades e ciências sociais.
Teoria Econômica e debates no Brasil
As discussões integram a 25ª Conferência da Society for the Advancement of Economic Theory (SAET), realizada no IMPA até sábado (18). O evento reúne laureados com o Nobel, como James Heckman (especialista em econometria e políticas públicas) e Lars Peter Hansen (estudioso de precificação de ativos financeiros), além de acadêmicos de instituições como Columbia University, Universidade de Minnesota e Universidade de Zurique.
A edição deste ano homenageia os 80 anos do economista brasileiro Aloisio Araujo, professor da FGV e pesquisador emérito do IMPA, com trajetória nas áreas de macroeconomia, mercados financeiros, economia da informação e equilíbrio geral. Araujo destaca que o formato presencial do encontro é fundamental para aproximar o Brasil da fronteira do conhecimento científico e facilitar a troca de artigos ainda não publicados.