Rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos atingem níveis recordes desde 2002 e 2007
Rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos subiram pelo sexto dia consecutivo, com o papel de 30 anos atingindo 5,61% e o de 10 anos chegando a 5,28%. A alta ocorre sob pressão inflacionária, fiscal e maior oferta de papéis para financiar a dívida pública, que superou US$ 40 trilhões

Os rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos registraram alta pelo sexto dia consecutivo nesta terça-feira (29), refletindo um movimento de liquidação no mercado de dívida americano. O Treasury de 30 anos atingiu 5,61%, o patamar mais elevado desde junho de 2002, enquanto o título de 10 anos, referência para o custo do crédito no país, chegou a 5,28%, nível não visto desde 2007.
A escalada dos juros longos é impulsionada por um cenário de pressão inflacionária e fiscal. O preço do petróleo Brent, referência global, manteve-se acima de US$ 100 por barril em grande parte de setembro, cotado a US$ 104 nesta terça-feira. O encarecimento dos combustíveis e do transporte dificulta a convergência da inflação, o que pode levar o Federal Reserve (Fed) a manter as taxas de juros elevadas ou a implementar novos aumentos.
Política monetária e inflação
Neste mês, o Fed elevou os juros em 0,25 ponto percentual, estabelecendo a faixa entre 3,75% e 4%. Sobre a possibilidade de novas altas, John Williams, presidente do Fed de Nova York, indicou que não há urgência para um novo ajuste, mas admitiu que outra elevação pode ser necessária até o fim do ano caso a inflação permaneça acima da meta. O mercado aguarda agora a divulgação do relatório de emprego de setembro, prevista para sexta-feira, para calibrar as expectativas sobre os próximos passos do banco central.
Pressão fiscal e oferta de títulos
A situação das contas públicas dos Estados Unidos agrava a volatilidade. A dívida pública americana superou US$ 40 trilhões no mês passado, exigindo que o Tesouro venda volumes crescentes de títulos para financiar o endividamento. Esse excesso de oferta, somado à preocupação com a trajetória fiscal e a crise energética derivada do conflito entre EUA e Irã, eleva o prêmio de prazo — a remuneração extra exigida por investidores para deter papéis de longo prazo.
Mesmo a tentativa de intervenção do governo não surtiu efeito. Em agosto, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, implementou um programa de recompra de títulos de longo prazo quando o rendimento do Treasury de 30 anos estava em 5,2%. Desde então, o índice subiu para 5,61%.
Disputa por capital e mercado de ações
A pressão nos rendimentos é intensificada pela emissão de dívidas corporativas. A Paramount, por exemplo, iniciou a emissão de US$ 32 bilhões em títulos para compor um pacote de US$ 52 bilhões destinado à aquisição da Warner Bros. Discovery. A concorrência entre governo e empresas por capital força a elevação dos juros para atrair compradores, em um momento em que o Citigroup identifica uma escassez de investidores dispostos a adquirir Treasuries.
Apesar da instabilidade nos títulos, o mercado de ações apresenta resiliência. Nesta terça-feira, o Nasdaq 100 subiu 0,2%, enquanto o S&P 500 recuou 0,3%, situando-se 2% abaixo do pico de agosto. O suporte aos ativos de risco é atribuído ao crescimento econômico robusto, sustentado por investimentos em inteligência artificial.
Desempenho histórico e sazonalidade
Os Treasuries acumulam queda de 2,6% no ano, após terem subido 6,3% em 2025. O desempenho atual coincide com um período historicamente desfavorável: na última década, a perda mediana dos títulos foi de 0,9% em setembro e 0,7% em outubro. Com a instabilidade no Oriente Médio e a fragilidade fiscal, setembro tende a ser o pior mês desde 2023.