Risco dos títulos da França atinge o maior nível desde a crise de 2011
A dívida pública da França atingiu € 3,5 trilhões, elevando o prêmio de risco dos títulos franceses ao maior nível desde 2011. O déficit orçamentário do país deve superar 5% do PIB este ano, com projeções de chegar a 5,7% no próximo exercício

A dívida pública da França tornou-se o novo epicentro de instabilidade financeira na Europa, elevando o prêmio de risco dos títulos franceses em relação aos alemães ao maior nível desde a crise de 2011. Com o custo de financiamento atingindo o patamar mais alto em 25 anos, o cenário é agravado pela disparada nos preços do petróleo, impulsionada por conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio.
O endividamento francês soma € 3,5 trilhões, o que representa aproximadamente 119% do PIB estimado para 2026. O déficit orçamentário do país deve ultrapassar os 5% do PIB ainda este ano, frustrando as metas governamentais. Projeções da Comissão Europeia indicam que, sem medidas de contenção, esse déficit pode chegar a 5,7% do PIB no próximo ano.
Riscos de contágio e vulnerabilidade fiscal
A atual turbulência na Zona do Euro remete ao período de 11 anos atrás, quando a União Europeia precisou resgatar nações como Portugal, Irlanda e Grécia com um aporte de quase € 280 bilhões. Naquela ocasião, a aversão ao risco provocou a saída de capital de mercados emergentes, resultando em alta do dólar, do euro e dos juros globais.
Atualmente, o Brasil é apontado como um dos mercados mais vulneráveis a esse efeito dominó devido à sua situação fiscal. O déficit fiscal nominal brasileiro subiu para quase 10% do PIB, enquanto a dívida pública superou os 80%. Para evitar a desvalorização do real e a nova escalada de juros, o país depende de um ajuste fiscal crível.
Apesar da fragilidade estrutural, os ativos brasileiros registraram forte alta na última semana, impulsionados pelo cenário político após Flávio Bolsonaro assumir a liderança sobre Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno da eleição presidencial.
Impactos em mercados emergentes e Europa Oriental
Além da América Latina, economias da Europa Central e Oriental apresentam riscos elevados por possuírem políticas monetárias e econômicas integradas à Zona do Euro. A Polônia, especificamente, sofre pressões fiscais que levaram a Moody’s Ratings a rebaixar sua nota de crédito soberano para A3 em setembro.
Em contrapartida, parte do mercado vê a possível liquidação de ativos emergentes como uma oportunidade de compra. Estratégias de proteção incluem a priorização de títulos em moeda local em mercados de fronteira, como Cazaquistão, Egito e Nigéria, que possuem baixa correlação com a dívida de países desenvolvidos.
Resiliência regional e indicadores de estabilidade
Diferente do cenário de 2011, quando o spread dos títulos em dólares de países em desenvolvimento chegou a 447 pontos-base frente aos Treasuries americanos em outubro, alguns emergentes apresentam maior solidez atual.
Na América Latina, México, Peru e Chile destacam-se por manterem o déficit fiscal controlado e oferecerem rendimentos atrativos em seus bonds. A resiliência desses mercados é sustentada por:
- Saldos externos mais robustos;
- Dinâmicas fiscais mais sólidas;
- Bancos centrais independentes;
- Altos rendimentos nominais.
Essa configuração reduz a probabilidade de vendas forçadas de moedas emergentes e posiciona esses ativos como reservas alternativas em meio à instabilidade europeia.