Rússia utiliza frota de navios fantasmas para transportar 80% de seu petróleo e burlar sanções
A Rússia transporta 80% de seu petróleo via "frota fantasma" de cerca de 1,3 mil navios para contornar sanções dos Estados Unidos. As embarcações, muitas sem seguro e com bandeiras falsas, exportam o produto principalmente para China e Índia. A operação é associada a riscos ambientais e atividades de espionagem contra países da Otan
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A Rússia transporta atualmente 80% de seu petróleo por meio de uma "frota fantasma", estratégia que permite ao país contornar as sanções impostas pelos Estados Unidos a duas de suas maiores companhias petrolíferas. O Kremlin afirma que a economia russa permanece imune a tais restrições. Com a extração de cerca de 10% do petróleo global em 2024, a Rússia consolida-se como um dos três maiores exportadores mundiais do produto, ao lado de Estados Unidos e Arábia Saudita.
A operação logística, que atingiu seu ápice após a invasão da Ucrânia em 2022, baseia-se em navios obsoletos e sem manutenção adequada. Estima-se que a frota compreenda 1,3 mil embarcações, com um crescimento de pelo menos 65% no número de navios com bandeiras falsas entre janeiro e agosto de 2025. Atualmente, quatro em cada cinco petroleiros que transportam óleo russo não possuem seguro reconhecido pelo Grupo Internacional de Clubes de Proteção e Indenização, que cobre 90% das cargas marítimas globais.
O fluxo de exportações concentra-se nos portos do mar Negro e do mar Báltico, com 75% do volume saindo dessas regiões. Os principais destinos são China e Índia, enquanto Turquia, Singapura e Emirados Árabes Unidos importam volumes menores. Além da Rússia, a frota atende a regimes do Irã e da Venezuela, além de operadores ocidentais. A distribuição de carga revela que 50% dos navios transportam exclusivamente petróleo russo, 20% iraniano e 10% venezuelano, sendo que os 20% restantes operam com produtos de múltiplos países sancionados.
Para evitar a fiscalização, as embarcações utilizam táticas de ocultação, como a manipulação de sistemas de identificação automática, a alteração frequente de nomes e bandeiras e a transferência de carga em águas internacionais. A rentabilidade do setor é alta: enquanto um petroleiro de 15 anos custa cerca de US$ 40 milhões, uma única viagem de um mês do mar Negro para a Índia pode render mais de US$ 5 milhões ao proprietário.
A operação também é utilizada para atividades de espionagem e sabotagem contra países da Otan. Em outubro de 2025, a França deteve o navio Boracay, que já havia operado com sete bandeiras e cinco nomes diferentes. A embarcação transportava 750 mil barris de petróleo de Primorsk, na Rússia, para a Índia, e era suspeita de lançar drones que causaram o fechamento de aeroportos na Dinamarca. Incidentes semelhantes com drones foram registrados na Suécia, Noruega, Alemanha e Bélgica, onde o aeroporto de Bruxelas foi temporariamente fechado em 6 de novembro de 2025.
Em resposta, a Otan lançou a missão Sentinela do Báltico. Países como Reino Unido, Polônia, Dinamarca e Suécia intensificaram a inspeção de seguros no Canal da Mancha e em estreitos dinamarqueses. Já Estônia, Finlândia, Alemanha, Islândia, Letônia, Lituânia, Holanda e Noruega acordaram a interceptação de navios fantasmas após cortes inexplicáveis de cabos submarinos no Báltico. No entanto, a interceptação é limitada a águas territoriais (até 12 milhas náuticas), e a Rússia ameaça considerar qualquer ação contra seus petroleiros como um ataque ao Estado, como ocorreu em maio de 2025, quando Moscou enviou um caça para orbitar um navio interceptado pela Estônia.
O risco ambiental é crítico, pois navios que deveriam ter sido descartados aos 25 anos continuam operando. Em dezembro de 2024, dois petroleiros de 50 anos vazaram 5 mil toneladas de petróleo no estreito de Kerch, evento classificado como a pior catástrofe ambiental russa do século 21. A estrutura de propriedade é mascarada por empresas de fachada em jurisdições como Dubai, dificultando o rastreamento e desestabilizando o mercado de novas embarcações.