Mais de 98 mil candidatos disputam 8.295 vagas de especialização no Exame Nacional de Residência
Cerca de 98 mil candidatos realizam neste domingo (13) as provas do Exame Nacional de Residência (Enare) para disputar 8.295 vagas de especialização. A modalidade de acesso direto concentra a maior procura, com 89.935 inscritos para 6.019 postos
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Neste domingo (13), 98.036 candidatos realizam as provas do Exame Nacional de Residência (Enare), processo seletivo que disputa 8.295 vagas de especialização. O volume de inscritos evidencia a alta concorrência no setor, especialmente nas modalidades de acesso direto — destinadas a recém-formados sem especialização prévia —, que concentram 89.935 candidatos para 6.019 postos, resultando em uma média de quase 15 pessoas por vaga.
Distribuição de vagas e concorrência
A disputa varia drasticamente conforme a especialidade escolhida. No acesso direto, a Otorrinolaringologia apresenta a maior concorrência, com 38,94 candidatos por vaga, seguida por Medicina Legal e Perícias Médicas (36,67), Medicina Esportiva (36), Dermatologia (32,19) e Neurocirurgia (31,49). Em contrapartida, áreas como Acupuntura (3,33), Medicina de Emergência (3,98), Infectologia (4,33) e Homeopatia (4,50) registram a menor procura.
Além das vagas de entrada, o certame oferece:
- 1.301 vagas de pré-requisito (para quem já possui especialidade);
- 807 de área de atuação (complementares);
- 168 de ano adicional para treinamento prático.
Descompasso entre graduação e especialização
O cenário reflete um crescimento desproporcional entre a formação básica e a pós-graduação médica no Brasil. Nas últimas duas décadas, a expansão de cursos e vagas de graduação, impulsionada majoritariamente pela rede privada, superou a oferta de residências. Entre 2004 e 2024, o número de cursos de Medicina saltou de 132 para 448, enquanto as vagas anuais autorizadas subiram de 13.820 para 48.491 — um aumento de 251%.
Esse fenômeno é mais evidente nos dados recentes: entre 2018 e 2024, o número de estudantes de Medicina cresceu 71% (de 167,7 mil para 287,4 mil), enquanto o total de médicos residentes subiu apenas 26% (de 37.742 para 47.718).
A disparidade tornou-se crítica em 2023, quando 32.611 médicos se formaram, mas apenas 16.189 vagas de primeiro ano (R1) foram ocupadas no ano seguinte. A diferença de 16.422 profissionais sem vaga de residência contrasta com o déficit de 3.886 registrado em 2018. Esse quadro indica o descumprimento da meta estabelecida pela Lei do Mais Médicos de 2013, que previa a oferta de vagas de residência equivalente ao total de formados do ano anterior até 2018.
Medidas governamentais e gargalos financeiros
Para mitigar o déficit, o governo federal lançou em fevereiro deste ano o programa Agora Tem Especialistas, que prevê a criação de 3 mil novas bolsas de residência médica. Até agosto de 2026, 2.872 dessas bolsas já foram financiadas via Pró-Residência, com foco em áreas prioritárias para o SUS, como oncologia, anestesiologia, cirurgia oncológica, neurologia pediátrica, oftalmologia e radioterapia.
Apesar da medida, as novas bolsas cobrem apenas cerca de 18% da diferença entre formados e vagas de R1 de 2024. Além da escassez de vagas, a baixa remuneração — bolsa bruta mínima de R$ 4.106,09 para uma jornada de 60 horas semanais — e o endividamento estudantil afastam profissionais da especialização, que acabam optando por plantões imediatos.
Como alternativa, a Associação Médica Brasileira (AMB) sugere que o governo financie bolsas em centros de ensino de sociedades médicas. Atualmente, 32 das 54 sociedades de especialidades possuem centros que formam mais de 5 mil especialistas anualmente, embora não sejam credenciados pelo MEC.
Impactos na assistência e qualidade da formação
A projeção é que o Brasil atinja 1,15 milhão de médicos em 2035, com uma densidade de 5,2 profissionais por mil habitantes. No entanto, a quantidade não resolve a desigualdade regional: o Sudeste detém 46,3% dos médicos do país, e as capitais possuem 366% mais profissionais por mil habitantes do que o interior. Para reverter isso, propõe-se a criação de uma carreira de Estado para médicos, visando a fixação de profissionais em regiões remotas.
A qualidade do ensino também é ponto de atenção. A primeira edição do Enamed revelou que, de 351 cursos analisados em 2025, 107 (mais de 30%) ficaram nas faixas mais baixas de avaliação, sendo 24 com conceito 1 e 83 com conceito 2. Diante disso, há defesas por maior fiscalização de infraestrutura e a implementação de um exame de proficiência para certificar a aptidão do recém-formado antes do exercício da profissão.