Relatório da OCDE aponta escassez de profissionais qualificados na educação básica pública do Brasil
Relatório da OCDE divulgado nesta terça-feira (29) aponta a escassez de profissionais qualificados e a baixa atratividade como gargalos da educação básica pública no Brasil. O documento indica que 10,3% dos professores qualificados deixaram a profissão em 2022, enquanto apenas 22,3% dos docentes manifestaram satisfação salarial

A escassez de profissionais qualificados e a baixa atratividade da carreira docente são os principais gargalos da educação básica pública no Brasil, conforme aponta o relatório Education at a Glance (Panorama da Educação 2026), divulgado nesta terça-feira (29) pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O documento revela que 9% dos professores brasileiros não possuíam qualificação completa entre 2024 e 2025 — índice similar à média de 9,1% dos países da organização.
A falta de certificação ou formação pedagógica é impulsionada pela carência de docentes, especialmente em matemática e ciências naturais, com maior criticidade em regiões vulneráveis ou remotas.
Retenção e fluxo de profissionais
O cenário de escassez é agravado pela alta taxa de saída de profissionais. Em 2022, 10,3% dos professores plenamente qualificados deixaram a profissão no Brasil, seja por demissão ou aposentadoria, superando a média de 6,4% registrada nos países da OCDE no ano letivo de 2024-2025. Ricardo Henriques, superintendente-executivo do Instituto Unibanco, observa que esse movimento pode incluir a migração para a rede privada, mas ressalta que o dado evidencia a dificuldade de permanência nas escolas públicas.
Apesar disso, houve um crescimento de 4% no número de professores dos anos iniciais do ensino fundamental entre 2015 e 2024, período em que as matrículas recuaram 7%. Essa tendência de redução da demanda deve persistir, já que a OCDE projeta uma queda de 3% na população de crianças entre 5 e 14 anos no Brasil até 2033.
Condições de trabalho e remuneração
A baixa satisfação com o ambiente laboral impacta a atratividade da docência. Em 2022, apenas 44,3% dos professores dos anos finais do ensino fundamental no Brasil estavam satisfeitos com as condições de trabalho, enquanto a média da OCDE era de 68,4%. No quesito salarial, a disparidade é ainda maior: apenas 22,3% dos docentes brasileiros manifestaram satisfação, contra 38,7% nos países da organização.
Para mitigar esse quadro, o Ministério da Educação (MEC) mantém o Piso Nacional do Magistério, fixado atualmente em R$ 5.130,63.
Estratégias de atração e formação
Como alternativa para suprir a falta de especialistas, o Brasil tem recorrido a profissionais em segunda carreira. Em 2024, 11,5% dos docentes se encaixavam nesse perfil, índice superior aos 8,4% da média da OCDE.
Para atrair novos talentos, o governo federal implementou medidas institucionais:
- Pé-de-Meia Licenciaturas: Programa que resultou em um aumento de 106% nas matrículas de estudantes com alto desempenho no Enem em cursos de licenciatura entre 2024 e 2026.
- Mais Professores para o Brasil: Iniciativa criada em 2025 focada na valorização da carreira.
- Aprimoramento Acadêmico: Reformulação da formação inicial, fortalecimento do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid) e monitoramento anual via Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade).
O ministro da Educação, Leonardo Barchini, afirma que o país retomou uma política estruturada para atrair e reconhecer os professores, embora reconheça a existência de desafios históricos.
O relatório da OCDE, do qual o Brasil participa desde 1997, tem seus dados nacionais processados e calculados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).