Esportes

Psicanalista da USP analisa a relação emocional e a política dos sonhos no futebol brasileiro

07 de Julho de 2026 às 06:08

O psicanalista Christian Dunker analisa a relação emocional do brasileiro com o futebol, destacando a "oniropolítica" e a ressignificação de derrotas. O texto aborda a suspensão de regras sociais em estádios e a influência do desejo na persistência do torcedor

Psicanalista da USP analisa a relação emocional e a política dos sonhos no futebol brasileiro
AP Photo/Bruna Prado

O futebol opera no Brasil como uma narrativa nacional, funcionando como uma biografia coletiva onde cada Copa do Mundo representa um capítulo da trajetória do país, a exemplo do que ocorreu em 1958, 1970 e na frustração de 1982. Para o psicanalista Christian Dunker, professor da Universidade de São Paulo (USP), essa relação intensa é movida pela "oniropolítica", ou a política dos sonhos, que permite ao torcedor acreditar no improvável. Essa mobilização é reforçada pela característica do esporte de permitir que equipes com menos recursos vençam potências, como exemplificado pelo avanço da seleção de Cabo Verde contra a então campeã do mundo.

A conexão emocional é tão profunda que o termo "torcer" remete ao gesto físico de contorcer algo em sentidos opostos, refletindo como o corpo do torcedor reage ao jogo. Essa identificação coletiva transforma a seleção em uma comunidade imaginada, dissolvendo rivalidades entre torcidas organizadas. No entanto, a magnitude dessa expectativa gera frustrações proporcionais. Para evitar esse sofrimento, alguns torcedores adotam uma prevenção cognitiva, fingindo indiferença para não lidar com a contradição do desejo.

A eliminação de um time provoca o que Dunker classifica como luto e ferida narcísica, evidenciando a contingência do esporte. Embora a perda não possa ser revertida, o psicanalista aponta que existe uma etapa criativa nesse processo, na qual a derrota é ressignificada como parte do caminho para vitórias futuras. Já falhas individuais e dramáticas, como os erros de Barbosa em 1950 ou de Toninho Cerezo em 1982, tendem a se tornar traumas coletivos. O acaso depositado em uma única pessoa gera a busca por culpados e alimenta memórias de ressentimento.

O ambiente do estádio permite a suspensão de regras sociais, dando lugar ao "bárbaro" e a expressões irracionais, o que é considerado legítimo desde que não evolua para violência, racismo ou ódio. Essa mesma inclinação ao improvável, porém, reflete-se no crescimento das apostas esportivas. Enquanto no jogo o torcedor aceita a falta de controle sobre o resultado, na aposta surge a ilusão de que a participação ativa pode influenciar a sorte, mesmo contra as probabilidades matemáticas.

A persistência do torcedor brasileiro, que retorna a vestir a camisa mesmo após sucessivas decepções, fundamenta-se na natureza do desejo. Baseando-se em conceitos de Jacques Lacan, Dunker argumenta que o desejo humano é construído a partir da falta. No contexto do futebol, as privações e derrotas não encerram a paixão, mas a mantêm viva, tornando o apoio mais intenso justamente nos momentos de crise, como em descidas para a segunda divisão, já que a vitória constante seria monótona.

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