Serena Williams revela uso de medicação para perda de peso e reacende debate no esporte
Serena Williams revelou o uso de tirzepatida para perda de peso, substância que não é proibida pela Agência Mundial Antidoping. O fármaco pode causar perda de massa magra e déficit energético, embora a atleta relate melhoras metabólicas e cardiovasculares
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/Z/Y/AZ6A3CTHeJ7ZbiHXqR3Q/md.png)
O uso de medicações da classe GLP-1 para a perda de peso, admitido publicamente por Serena Williams, reacendeu o debate sobre a linha entre a saúde e a vantagem competitiva no esporte profissional. A tenista revelou ter utilizado a tirzepatida (comercializada como Zepbound e Mounjaro) para enfrentar dificuldades com o peso após a maternidade. Williams, que retornou ao tênis profissional em 2026, é embaixadora da empresa Ro, gestora dessas medicações, enquanto seu marido, Alexis Ohanian, é investidor da companhia.
Status regulatório e a questão do doping
Atualmente, as substâncias que imitam os hormônios intestinais GLP-1 e GIP não são proibidas no esporte profissional e não são classificadas como "desleais" pela Agência Mundial Antidoping (Wada). No entanto, a Wada mantém esses fármacos em sua lista de monitoramento.
Para que uma substância seja considerada doping, ela deve apresentar potencial para melhorar o desempenho, oferecer riscos à saúde do atleta ou violar o espírito esportivo. Especialistas apontam que, embora não haja evidências concretas de promoção de desempenho em atletas de elite, a situação muda em modalidades com categorias de peso restritas, como o pugilismo e a luta livre. Nesses casos, a perda de peso facilitada por fármacos poderia ser interpretada como uma vantagem indevida, similar ao uso proibido de diuréticos.
Impactos no organismo e desempenho físico
Além da supressão do apetite, as medicações GLP-1 podem gerar efeitos sistêmicos. Serena Williams relatou melhoras no colesterol, nas articulações e uma redução de 19% no seu risco cardiovascular. Estudos indicam que essas substâncias reduzem inflamações e melhoram a saúde metabólica, benefícios que ocorrem independentemente da perda de peso.
Entretanto, o uso desses fármacos apresenta riscos significativos para a performance atlética:
- Perda de massa magra: A semaglutida pode causar perda de até 35% de massa magra (músculos e água), enquanto a tirzepatida apresenta um índice de 25,4%.
- Déficit energético: A supressão do apetite pode dificultar a ingestão calórica necessária para treinos intensos, elevando o risco de fadiga e a incidência da deficiência relativa de energia no esporte (Red-S), que compromete o humor, a saúde óssea e o rendimento.
- Efeitos colaterais: Problemas gastrointestinais, perda muscular e inflamações graves no pâncreas são riscos associados.
A preservação muscular é possível mediante a combinação de exercícios de resistência e ingestão proteica adequada, mas a ciência ainda não determinou se doses baixas dessas substâncias poderiam acelerar a recuperação de atletas magros.
Dilemas éticos e posicionamento da indústria
A exposição de Williams como rosto da empresa Ro gera críticas sobre a normalização de medicamentos de prescrição como produtos de "estilo de vida" para pessoas que não se enquadram nos critérios clínicos (como diabetes tipo 2 ou obesidade).
As fabricantes Novo Nordisk (Wegovy e Ozempic) e Eli Lilly (Zepbound e Mounjaro) declararam que não apoiam o uso de seus produtos fora das indicações aprovadas, que incluem adultos com obesidade ou sobrepeso com comorbidades.
No âmbito esportivo, a última atuação de Serena Williams ocorreu no Torneio Aberto de Cincinnati, onde ela e a irmã, Venus Williams, foram derrotadas por Marta Kostyuk e Peyton Stearns por 2 sets a 1. Enquanto a atleta defende que sua transparência visa reduzir o estigma sobre a medicação, especialistas alertam que a visibilidade de ícones mundiais pode influenciar adolescentes a buscarem substâncias para controle de peso, mesmo mantendo índices saudáveis.