Vestido de Maria Esther Bueno motivou a criação de regra rígida de vestimenta em Wimbledon
O All England Lawn Tennis and Croquet Club instituiu a regra de trajes predominantemente brancos após Maria Esther Bueno usar roupas íntimas rosa em 1962. A norma foi totalizada em 2014, abrangendo acessórios e roupas íntimas
A escolha de vestuário de Maria Esther Bueno em 1962 foi o estopim para que o All England Lawn Tennis and Croquet Club (AELTC) transformasse a tradição de roupas brancas em uma regra rígida. Ao retornar de uma lesão e entrar na quadra Central de Wimbledon, a brasileira utilizou um vestido branco que, durante o saque, revelou um forro e calcinha na cor rosa. O episódio gerou impacto imediato no público e na organização, resultando na implementação da norma "predominantemente branco", que obrigava os competidores a usarem trajes quase inteiramente brancos.
A rigidez do clube, que até a década de 1980 era composto exclusivamente por homens em seu comitê, refletia a manutenção de padrões conservadores e de elite. O historiador Rob Lake aponta que a instituição via os detalhes do vestido de Bueno como impróprios para a etiqueta feminina da época. Essa postura rigorosa com a aparência das mulheres era recorrente, como visto em 1967, quando a italiana Lea Pericoli causou polêmica com vestidos curtos. Ambas as peças foram criadas por Ted Tinling, estilista que dominou a moda do tênis feminino no século 20, vestindo 75% das jogadoras de Wimbledon entre 1940 e 1980.
O controle sobre as vestimentas em Wimbledon possui raízes sociais e históricas. No final do século 19, o branco era um símbolo de status, acessível apenas a quem possuía recursos para adquirir e manter roupas esportivas separadas. Com o tempo, o que era uma preferência estética tornou-se uma ferramenta de imposição de tradição.
Antes de Bueno, outras atletas desafiaram as normas. Em 1949, Gussie Moran utilizou shorts rendados de Tinling que foram classificados pelos dirigentes como vulgares, atraindo mais atenção midiática do que seu desempenho esportivo. O estilista, que atuava como ponte entre atletas e a organização desde 1927, chegou a ser expulso do clube por conta dessas controvérsias, retornando apenas 30 anos depois. Outras rupturas ocorreram anteriormente: em 1919, Suzanne Lenglen abandonou espartilhos e saias longas por um modelo de mangas curtas de Jean Patou; já em 1931, Lili de Alvarez utilizou uma saia-calça de Elsa Schiaparelli, gesto associado à sua defesa da igualdade de gênero.
A formalização total das regras ocorreu em 2014, quando o torneio determinou que até roupas íntimas e acessórios, como solados e alças, deveriam ser quase inteiramente brancos. A medida resultou em advertências a atletas contemporâneos, como Serena Williams, por usar shorts coloridos sob a saia, e Roger Federer, solicitado a trocar tênis com solado laranja.
Atualmente, o rigor do código de vestimenta é interpretado como uma estratégia de preservação da marca. A imagem de "tênis em um jardim inglês", composta pelos gramados listrados e a estética impecável dos competidores, é mantida para preservar a identidade tradicionalista e a atmosfera idealizada do All England Club.