Justiça

Flávio Dino determina bloqueio de R$ 119 milhões de bens de Valdemar Costa Neto

10 de Julho de 2026 às 15:06

O ministro Flávio Dino determinou o bloqueio de R$ 119,2 milhões de Valdemar Costa Neto e a suspensão de 21 emendas parlamentares. A Polícia Federal investiga se o presidente do PL controlava a indicação de verbas na Câmara dos Deputados. A decisão também obriga a Casa a enviar a documentação da tramitação desses recursos em até 10 dias

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou o bloqueio de bens do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, no montante de R$ 119,2 milhões. A decisão atende a um pedido da Polícia Federal, que investiga a suspeita de que o dirigente partidário, apesar de não possuir mandato parlamentar, controlava a indicação de emendas na Câmara dos Deputados. Além da medida financeira, o magistrado suspendeu imediatamente todos os pagamentos de ao menos 21 emendas sob suspeita, totalizando R$ 119.216.703,15, valor este que a PF estima ter sido desviado.

A investigação é um desdobramento da Operação Transparência, iniciada em dezembro de 2025, e baseia-se em diálogos extraídos do celular de Mariângela Fialek, conhecida como Tuca. Ex-assessora do deputado Arthur Lira (PP-AL), Fialek atuou no gabinete do parlamentar entre março de 2021 e meados de 2025, migrando posteriormente para a liderança do Progressistas, onde recebia remuneração bruta de R$ 23,7 mil em cargo especial até dezembro de 2025.

As evidências apontam que Valdemar Costa Neto utilizava três servidores da Casa para gerir a distribuição de recursos. Nara Benedetti Nicolau Brum, lotada na liderança do PL, era responsável pela viabilização técnica, lidando com planilhas, limites regimentais e ajustes. Já Garigham Amarante Pinto, advogado com cargo especial na mesma liderança, atuava como emissário direto do presidente do partido.

Nas mensagens interceptadas, a PF identificou que Valdemar decidia valores, escolhia municípios e alterava destinos de emendas. Um exemplo ocorre em diálogos onde Garigham insiste na alocação máxima de recursos para a área de turismo, mencionando a cifra de R$ 24 milhões. Posteriormente, o assessor encaminhou a Valdemar uma lista com CNPJs e municípios, a maioria no estado de São Paulo, vinculados a esse montante. Em 28 de agosto, Nara enviou a Fialek uma planilha intitulada "Alteração em Turismo – VCN", confirmando a gestão do ex-deputado sobre as verbas.

Como Valdemar não detém prerrogativa legal para destinar orçamento, a PF apurou que a estratégia para ocultar a autoria das indicações era registrar deputados federais como solicitantes formais. O cruzamento de dados entre o celular de Fialek e o Portal da Transparência revelou que, das 21 emendas atribuídas a Valdemar em áreas como saúde, esporte e turismo, R$ 104 milhões já haviam sido pagos.

Em sua decisão, o ministro Flávio Dino destacou a contradição entre a influência exercida por Valdemar sobre os servidores e a inexistência de amparo jurídico para que ele dispusesse do erário como se fosse patrimônio privado. A Polícia Federal investiga a prática de associação criminosa e peculato-desvio, crime que prevê pena de 2 a 12 anos de reclusão quando servidores dão destino diverso ao dinheiro público para benefício próprio ou de terceiros.

Embora a Procuradoria-Geral da República tenha se manifestado contra as cautelares, o órgão defendeu a continuidade do rastreamento dos valores e das investigações. Dino acolheu parcialmente as solicitações da PF e ordenou que a Câmara dos Deputados envie, em até 10 dias, toda a documentação interna de tramitação das emendas identificadas. A apuração agora busca verificar a eventual participação de deputados federais no esquema, seja por ação ou omissão. Não houve registro de manifestação das defesas de Valdemar Costa Neto ou dos servidores citados na decisão.

Notícias Relacionadas