Justiça

Governo brasileiro decide expulsar suspeito de espionagem russa detido em Brasília desde 2022

08 de Julho de 2026 às 15:13

O governo brasileiro determinou a expulsão de Sergey Vladimirovich Cherkasov, suspeito de espionagem russa e detido em Brasília desde 2022. A medida, publicada no Diário Oficial da União, depende do cumprimento da pena do homem ou de liberação judicial

Governo brasileiro decide expulsar suspeito de espionagem russa detido em Brasília desde 2022
Redes sociais / Reprodução

O governo brasileiro decidiu expulsar Sergey Vladimirovich Cherkasov, suspeito de ser um espião russo detido em Brasília desde 2022. A determinação, publicada no Diário Oficial da União nesta segunda-feira (6/7), estabelece o retorno do homem à Rússia, embora a medida dependa do cumprimento de sua pena no Brasil ou de uma liberação do Poder Judiciário. Não há, até o momento, uma data definida para a execução da saída.

Cherkasov foi preso em abril de 2022, em Amsterdã, na Holanda, enquanto tentava ingressar no país para um estágio no Tribunal Penal Internacional, em Haia. Na ocasião, ele utilizava a identidade falsa de Victor Muller Ferreira. Investigações conjuntas entre autoridades brasileiras, americanas e holandesas indicam que ele atuava como agente do GRU, serviço de inteligência das Forças Armadas russas. Após ser devolvido ao Brasil, foi condenado por uso de documento falso a 15 anos de prisão, pena posteriormente reduzida para cinco anos. Atualmente, ele cumpre a sentença em uma penitenciária federal em Brasília. No processo, Cherkasov admitiu a falsidade da identidade, mas negou a atividade de espionagem.

O caso de Cherkasov revelou a existência de uma rede de agentes russos conhecidos como "ilegais", que adotam nacionalidades, profissões e personalidades falsas para operar no exterior por longos períodos. A Polícia Federal identificou pelo menos nove indivíduos que utilizaram documentos brasileiros para criar disfarces sólidos, visando atuar em outros países sem levantar suspeitas. De acordo com as investigações, o Brasil não era o alvo da coleta de informações, mas servia como um "berçário" para a emissão de documentos. Essa escolha teria sido motivada pela miscigenação da população, pelo histórico de neutralidade do país em conflitos internacionais e por fragilidades nos sistemas de controle e emissão de documentos.

Entre os outros agentes identificados estão Mikhail Mikushin, que usava o nome de José de Assis Giammaria e foi preso na Noruega em novembro de 2022 após infiltrar-se em uma universidade no Ártico, e Artem Shmyrev, que se passava por Gerhard Daniel Campos e desapareceu em janeiro de 2023, pouco antes de uma operação da Polícia Federal. Shmyrev mantinha uma empresa de impressão 3D no Rio de Janeiro que prestava serviços para o Ministério da Cultura e comandos da Marinha e do Exército. Outros seis nomes foram listados em investigações: Yekaterina Leonidovna Danilova, Vladimir Aleksandrovich Danilov, Olga Igorevna Tyutereva, Aleksandr Andreyevich Utekhin, Irina Alekseyevna Antonova e Roman Olegovich Koval.

Os disfarces incluíam atividades variadas, como a de Utekhin, que atuava como joalheiro em Brasília, e a de uma agente que se passava por modelo sob o nome de Maria Isabel Moresco Garcia. No caso de Cherkasov, as investigações apontam que ele chegou a morar nos Estados Unidos, próximo à sede da CIA, e frequentou aulas de forró em São Paulo. Para obter a documentação brasileira, ele teria subornado uma funcionária de cartório com um colar de US$ 400 para conseguir uma certidão de nascimento no Rio de Janeiro, datada de 1989, a partir da qual obteve RG, CNH, passaporte e cartão do SUS. Já Mikushin utilizou uma certidão original emitida em Padre Bernardo, Goiás, para cursar graduação e mestrado no Canadá.

A situação de Cherkasov gerou um impasse diplomático. A Rússia solicitou sua extradição alegando que ele seria um traficante de drogas, pedido autorizado pelo STF, mas condicionado ao término das investigações da Polícia Federal. Simultaneamente, os Estados Unidos pleitearam a extradição do agente por atuação ilegal de inteligência em solo americano. Houve discussões sobre a entrega de Cherkasov em troca da extradição do blogueiro Allan dos Santos, mas o acordo não prosperou após a negativa dos EUA em entregar o brasileiro em março de 2024.

Atualmente, Sergey Cherkasov é o único dos nove suspeitos que permanece em território brasileiro. Para mitigar a atuação de agentes semelhantes, o Brasil e o Uruguai enviaram alertas à Interpol com dados de cinco dos espiões, permitindo que autoridades de imigração de 196 países identifiquem os envolvidos. O governo russo, que geralmente nega a atividade de espionagem de seus agentes, apenas admitiu indiretamente a condição de Mikhail Mikushin ao incluí-lo em um acordo de troca de prisioneiros com os Estados Unidos em agosto de 2024.

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