Justiça autoriza família de Tancredo Neves a acessar documentos sigilosos sobre internação do presidente eleito
O Tribunal Regional Federal da 1ª Região autorizou a família de Tancredo Neves a acessar documentos sigilosos sobre sua internação em 1985. O CFM e o CRM-DF devem fornecer prontuários e a lista de médicos para apurar suspeitas de *erro médico
O Tribunal Regional Federal da 1ª Região decidiu, por unanimidade, autorizar que a família de Tancredo Neves tenha acesso a documentos sigilosos referentes à sua internação no Hospital de Base, em Brasília. A medida visa esclarecer suspeitas de erro médico que cercam a morte do presidente eleito, ocorrida em 21 de abril de 1985, logo após a transição para o governo civil no Brasil.
Com a determinação judicial, o Conselho Federal de Medicina (CFM) e o Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF) deverão disponibilizar a relação de médicos, prontuários e demais registros da época. Ambas as entidades informaram que ainda aguardam a notificação oficial da decisão.
Questionamentos sobre a assistência médica
A busca por respostas ganhou força em 2010, após a publicação da obra "O paciente", de Luís Mir. Com o apoio dos familiares, a pesquisa apontou possíveis falhas nos protocolos adotados durante o tratamento de diverticulite — inflamação do intestino grosso — que levou Tancredo à internação na véspera de sua posse.
A família havia tentado obter os documentos administrativamente junto aos conselhos de medicina, mas o pedido foi negado sob a justificativa de sigilo entre médico e paciente, o que motivou a judicialização do caso.
As suspeitas de negligência concentram-se em quatro pontos principais:
- Intervenção cirúrgica: a decisão por uma cirurgia de emergência é questionada, dado que tratamentos para diverticulite costumam ser eletivos.
- Segurança hospitalar: a presença de mais de 30 acompanhantes dentro da sala de cirurgia, prática proibida por normas de segurança.
- Protocolos de recuperação: a possibilidade de falhas no pós-operatório terem agravado o quadro clínico.
- Sanções administrativas: a existência de advertências aplicadas pelo CRM-DF aos médicos responsáveis, cujo teor permanece desconhecido.
Impactos e contexto histórico
Um dos pontos de contradição destacados pela investigação envolve a posição física de Tancredo Neves em registros fotográficos do período; a postura sentada, registrada em imagens, seria incompatível com a região onde a cirurgia foi realizada. Após apresentar hemorragias e outras complicações, o presidente eleito foi transferido para o Instituto do Coração (Incor) em estado grave, vindo a falecer um mês após a internação.
A advogada Juliana Porcaro, representante da família, afirma que a abertura dos arquivos é fundamental para a compreensão da história do país. Segundo a jurista, o ex-presidente José Sarney, que assumiu a presidência como vice na chapa, também compartilha a percepção de que houve negligência por parte da equipe de saúde.