MPPB investiga pizzaria em João Pessoa por suspeita de discriminação de clientes por convicções políticas
O Ministério Público da Paraíba investiga a Mangiare Pizzaria & Restaurante, em João Pessoa, por suspeita de discriminação política contra clientes. O órgão notificou a empresa para prestar esclarecimentos e acionou o Procon e a Polícia Civil
O Ministério Público da Paraíba (MPPB) instaurou um procedimento para investigar a Mangiare Pizzaria & Restaurante, em João Pessoa, sob a suspeita de discriminação de clientes com base em convicções políticas. A apuração foi motivada por uma postagem em redes sociais, publicada na última terça-feira (27), na qual o estabelecimento solicitava que pessoas de esquerda e "eleitores de larápios" não frequentassem o local.
Embora a mensagem tenha sido removida horas depois, a pizzaria alegou em nova publicação que a retirada ocorreu após notificação do Ministério Público. O MPPB, contudo, negou ter determinado a exclusão do conteúdo.
Medidas administrativas e judiciais
O órgão ministerial notificou a empresa para apresentar esclarecimentos no prazo de 10 dias úteis. Além disso, o MPPB encaminhou cópias do processo ao Procon Estadual da Paraíba e à Delegacia-Geral da Polícia Civil da Paraíba, visando a adoção de medidas administrativas e a apuração de possíveis crimes relacionados à publicação.
A investigação também considera outras ações do estabelecimento. Em outubro, a pizzaria promoveu rodízios nos dias 4 e 25 — datas correspondentes aos turnos das Eleições 2026 — pelo valor de R$ 22, preço que coincide com o número do candidato Flávio Bolsonaro.
Limites entre liberdade de expressão e direito do consumidor
A recusa de atendimento baseada em preferência política é vedada pelo Código de Defesa do Consumidor (CDC). De acordo com a legislação, estabelecimentos comerciais não podem negar a venda de produtos ou a prestação de serviços a quem esteja disposto a pagar, desde que haja disponibilidade do item ou serviço.
A autonomia do comerciante para gerir seu negócio não permite a seleção arbitrária de clientes. Ao abrir as portas ao público, o fornecedor submete-se aos princípios constitucionais de igualdade, dignidade da pessoa humana e vedação à discriminação.
É importante diferenciar a manifestação de opinião política da restrição de acesso. Enquanto críticas a partidos ou candidatos não são automaticamente ilegais, a negativa concreta de atendimento ou a imposição de regras para excluir consumidores por ideologia caracteriza prática abusiva. A recusa só é justificada por motivos objetivos, como riscos à segurança de funcionários e clientes ou descumprimento de normas legítimas de funcionamento.
Consequências e canais de denúncia
A discriminação de público pode resultar em diversas sanções:
- Administrativas: Aplicação de multas por órgãos de defesa do consumidor.
- Cíveis: Indenizações por danos morais ou materiais, mediante comprovação legal.
- Operacionais: Suspensão temporária das atividades em casos graves que coloquem em risco a integridade física ou moral dos consumidores.
Consumidores que se sintam discriminados podem reunir provas — como capturas de tela, vídeos, mensagens e testemunhos — e protocolar denúncias no Procon, no Ministério Público ou ingressar com ações judiciais.
Posicionamento do setor
A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) manifestou-se contrária a qualquer forma de discriminação, defendendo a convivência democrática e o atendimento sem distinções.
Já a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) repudiou a criação de listas de boicote a estabelecimentos por posicionamento político de seus donos, classificando a prática como possível ato ilícito. A entidade ressaltou que, embora o consumidor tenha liberdade para escolher onde consumir, o estabelecimento não pode negar atendimento por motivações ideológicas, condenando também eventuais constrangimentos a trabalhadores do setor por suas escolhas eleitorais.
A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, foi acionada sobre o caso. A Mangiare Pizzaria & Restaurante não retornou os contatos para manifestação.