Operações policiais atingem patamares recordes de participação em tiroteios no Brasil, aponta relatório do Fogo Cruzado
Relatório do Instituto Fogo Cruzado indica que operações policiais estiveram em 39% dos 2.511 tiroteios registrados, resultando em 584 mortos e 317 feridos. O documento aponta a violência armada como vetor crescente, com destaque para a Grande Rio, onde ações policiais representaram 47% dos casos

Operações policiais consolidaram-se como um dos principais vetores da violência armada no Brasil, conforme aponta o relatório semestral do Instituto Fogo Cruzado, divulgado nesta quarta-feira (29). Os dados revelam que, embora o volume total de confrontos tenha apresentado oscilações, a presença de forças de segurança nos tiroteios atingiu patamares recordes.
No total, foram registrados 2.511 tiroteios, que resultaram em 2.403 pessoas baleadas, sendo 1.628 óbitos e 775 feridos. As intervenções policiais estiveram envolvidas em 39% desses episódios, totalizando 989 ocorrências que deixaram 584 mortos e 317 feridos. Esse índice representa um crescimento em relação ao primeiro semestre de 2025, quando a participação policial ocorria em 33% dos conflitos.
Paralelamente, o relatório indica a expansão de grupos armados nos estados monitorados. As disputas entre facções e milícias causaram um aumento de 12% no número de baleados, saltando de 181 vítimas no início de 2025 para 203 no mesmo período de 2026.
Análise regional da violência
A distribuição dos confrontos revela dinâmicas distintas nas capitais e regiões metropolitanas:
- Grande Rio: Foram mapeados 976 tiroteios. Apesar da tendência de queda no volume total, as operações policiais representaram 47% dos casos, o índice mais alto para um primeiro semestre desde 2017.
- Salvador e Região Metropolitana: A cidade registrou seu menor índice histórico de tiroteios em primeiros semestres, com 656 ocorrências. Contudo, a letalidade em ações policiais permanece alta: dos 637 baleados no período, 53% foram atingidos em contextos de operações. Entre os 34 agentes de segurança baleados, 24 estavam em serviço (71%).
- Grande Recife: A região apresentou a menor taxa de violência armada desde 2019, com 645 tiroteios. No entanto, o primeiro semestre de 2026 concentra o maior volume da série histórica de tiroteios em operações policiais, com 60 registros (9% do total). Outro ponto crítico é o aumento de baleados em crimes contra o patrimônio, com 53 vítimas, superando a média dos quatro anos anteriores.
- Belém: A região metropolitana registrou 234 tiroteios, uma redução de 20% frente aos 293 casos do primeiro semestre de 2025. Mesmo com a queda, a atuação policial foi marcada em 45% dos registros.
De acordo com Terine Husek Coelho, gerente de Pesquisa do Instituto Fogo Cruzado, a manutenção de um modelo de segurança pública baseado em operações há três décadas tem se mostrado ineficaz para desarticular grupos armados. A análise aponta que essa estratégia não garante a segurança da população e acaba por alimentar o ciclo de tiroteios, prejudicando o funcionamento de unidades de saúde e escolas, além de expor moradores ao risco constante.