Justiça

PF identifica rede de influência entre Banco Master, magistrados e familiares de ministros do STF

22 de Setembro de 2026 às 07:14 4 min de leitura

A Polícia Federal encontrou em celulares de Daniel Vorcaro evidências de influência entre o Banco Master, magistrados e familiares de membros da Suprema Corte. As investigações apontam pagamentos de luxo a integrantes de um grupo ligado ao ministro Kassio Nunes Marques e repasses mensais de R$ 500 mil ao filho do magistrado. O banco também é investigado por irregularidades na compra de *precatórios

-0:00
PF identifica rede de influência entre Banco Master, magistrados e familiares de ministros do STF
Reprodução

A Polícia Federal identificou, em aparelhos celulares do banqueiro Daniel Vorcaro, evidências de uma rede de influência envolvendo o Banco Master, magistrados e familiares de membros da Suprema Corte. As investigações revelaram a existência de um contrato de prestação de serviços advocatícios, datado de março de 2024, firmado entre a instituição financeira e o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos.

O escritório é liderado por Camilla Ramos, esposa do desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). O acordo previa a atuação em processos de precatórios do setor sucroalcooleiro, com honorários fixados em 5% líquidos sobre os valores recebidos pelo banco. Caso todas as ações judiciais — que somavam R$ 8,5 bilhões — fossem vitoriosas, os pagamentos ao escritório poderiam atingir R$ 427 milhões.

Interações e Benefícios

Mensagens recuperadas pela PF indicam a proximidade entre o banqueiro e o desembargador. Em dezembro de 2024, Vorcaro alertou Newton Ramos sobre um julgamento de seu interesse, recebendo a confirmação de que o magistrado estava ciente. Em junho de 2025, Camilla Ramos celebrou via mensagem uma vitória na 2ª Turma do STF referente a teses de usinas, mencionando o voto do ministro Kassio Nunes Marques, e tentou agendar um encontro com o desembargador.

As apurações apontam a existência de um grupo denominado “Turma KN”, referência às iniciais do ministro Nunes Marques. Registros mostram que Daniel Vorcaro custeou despesas de luxo para integrantes desse grupo, incluindo:

  • Hospedagens nos hotéis Fasano de Salvador e Rio de Janeiro;
  • Acesso a camarotes no Carnaval do Rio de Janeiro em 2025;
  • Ingressos para eventos de Fórmula 1 e shows em São Paulo.

Em maio de 2025, pouco antes de o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) autorizar a venda do Master para o Banco Regional de Brasília (BRB), o desembargador Newton Ramos solicitou a Vorcaro uma "tarifa promocional" para a estadia do ministro Nunes Marques no hotel Fasano, custo que foi assumido pelo banqueiro.

Suspeitas de Irregularidades em Precatórios

O Banco Master é investigado pela compra de precatórios — dívidas judiciais da União — que teriam sido expedidos prematuramente, antes do encerramento definitivo dos processos. Essa prática permitiria a antecipação de créditos que ainda poderiam ser contestados pelo poder público. As aquisições ocorreram em 2023 via fundos de investimento administrados por empresas agora alvo da Operação Compliance Zero.

Em outubro de 2024, o então diretor jurídico do banco, Luiz Rennó, informou a Vorcaro sobre uma vitória judicial no caso "Alcídia", envolvendo o setor sucroalcooleiro, destacando votos favoráveis dos ministros Edson Fachin, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques.

Vínculos com Familiares e Consultorias

As mensagens de Rennó sugerem a manutenção de pagamentos a Kevin Marques, filho do ministro Nunes Marques. Em julho de 2025, o diretor questionou Vorcaro sobre a manutenção de um repasse mensal de R$ 500 mil ao jovem.

Além disso, diálogos de agosto de 2025 mencionam a prioridade de pagamentos a consultorias ligadas a autoridades, citando nominalmente "Guido e Lewandowski", além de uma empresa chamada Consult. Esta última pertence a um sócio do filho do ministro e compartilha o mesmo e-mail do Instituto de Pesquisa e Gestão Tributária (IPTF), de propriedade de Kevin Marques.

Posicionamento do Ministro

O ministro Kassio Nunes Marques negou qualquer relação com Daniel Vorcaro ou o Banco Master, afirmando que nunca trocou mensagens com o banqueiro, não solicitou benefícios e jamais autorizou terceiros a falarem em seu nome.

Sobre o processo das usinas, o ministro esclareceu que, embora tenha votado a favor da tese, a decisão não beneficiava especificamente o Banco Master, mas sim uma tese jurídica ampla aplicada a diversas empresas. Informou ainda que chegou a ser anotado como impedido por ter decidido o caso anteriormente no TRF-1, mas solicitou a retificação após compreender que a matéria era de natureza geral.

Notícias Relacionadas