PF pede prorrogação de prazo para investigar financiamento de cinebiografia sobre Jair Bolsonaro
A Polícia Federal pediu ao ministro André Mendonça a prorrogação por 90 dias do inquérito sobre o financiamento do filme Dark Horse. A investigação apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro
A Polícia Federal solicitou ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), a extensão do prazo de investigação sobre o financiamento da cinebiografia Dark Horse, que narra a trajetória de Jair Bolsonaro. O pedido de prorrogação é de 90 dias para o inquérito que apura a conduta do senador Flávio Bolsonaro e do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo proprietário do Banco Master.
A apuração, iniciada em julho com a concordância da Procuradoria-Geral da República (PGR), foca em possíveis crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. O senador Flávio Bolsonaro figura formalmente como investigado no processo.
Fluxo financeiro e contradições
O caso ganhou tração em maio de 2026, após a revelação de diálogos entre o senador e Daniel Vorcaro sobre a captação de verbas para o filme. Embora tenha negado inicialmente a solicitação de valores, Flávio Bolsonaro admitiu a interlocução com o ex-banqueiro após a divulgação de um áudio, alegando que a operação era de natureza privada e isenta de irregularidades.
A investigação busca rastrear recursos enviados por uma empresa de Vorcaro para os Estados Unidos. Karina Ferreira da Gama, proprietária da produtora Go Up Entertainment, declarou que Vorcaro aportou mais de 90% do capital da obra. O orçamento estimado era de US$ 13 milhões (aproximadamente R$ 65,7 milhões na cotação da época), sendo que o senador reconheceu o investimento de pouco mais de US$ 12 milhões feito pelo ex-banqueiro.
Linhas de investigação e envolvimento de Eduardo Bolsonaro
A Polícia Federal trabalha com três eixos principais de análise:
- Os repasses efetuados por Vorcaro sob solicitação de Flávio Bolsonaro;
- A hipótese de que parte do dinheiro tenha custeado a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos;
- O destino de emendas parlamentares enviadas a entidades vinculadas à produtora do longa.
Eduardo Bolsonaro, que aparece em contrato como produtor-executivo do filme, negou ter recebido verbas de fundos ligados a Vorcaro, justificando que seu status migratório nos EUA impediria tal transação. Ele afirmou ter investido US$ 50 mil no projeto, valor que teria sido devolvido posteriormente, mas negou que o reembolso tenha transitado pelo fundo vinculado ao ex-banqueiro.
Desvio de emendas e a Operação Make Up
Paralelamente, sob a relatoria do ministro Flávio Dino, a PF investiga o possível desvio de R$ 2 milhões em emendas parlamentares indicadas pelo deputado federal Mario Frias. Os recursos foram destinados ao Instituto Conhecer Brasil (ICB) e à Academia Nacional de Cultura (ANC), ambos presididos por Karina Ferreira da Gama.
A frente de investigação surgiu após pedido da deputada Tabata Amaral ao STF. Mario Frias, que também atua como roteirista e produtor-executivo de Dark Horse, negou que as emendas tenham sido usadas na produção do filme. No entanto, a PF identificou uma transferência de R$ 645,4 mil do deputado para a produtora, além de coincidências temporais entre a movimentação financeira da Go Up e o recebimento das emendas pelo ICB.
Em 10 de setembro, a PF e a Controladoria-Geral da União (CGU) deflagraram a Operação Make Up, com 49 mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro, São Paulo, Distrito Federal e Ceará. Os alvos, incluindo Mario Frias e Karina Ferreira da Gama, são investigados por peculato, organização criminosa, falsidade documental e crimes licitatórios. Há a suspeita de que dinheiro público tenha pago hospedagens, refeições e serviços de outras produtoras durante as filmagens.
Impugnações judiciais
A defesa de Flávio Bolsonaro tentou, em quatro ocasiões durante o mês de julho, transferir a investigação conduzida por Flávio Dino para o ministro André Mendonça. O argumento jurídico é que Mendonça já supervisiona as demais apurações sobre o filme e deveria, portanto, centralizar também a análise sobre as emendas parlamentares.
O senador, por sua vez, classificou a operação policial como interferência política no processo eleitoral e reiterou que não houve uso de verbas públicas na cinebiografia.