Polícia Federal indicia 16 pessoas da Voepass por envolvimento na queda de avião em Vinhedo
A Polícia Federal indiciou 16 pessoas da Voepass, incluindo o presidente da empresa, pela queda de um turboélice em Vinhedo que matou 62 pessoas. Quinze respondem por atentado contra a segurança do transporte aéreo e um por falsidade ideológica. A investigação apontou a operação de aeronave com equipamentos inoperantes e a omissão deliberada de falhas técnicas

A Polícia Federal indiciou 16 pessoas ligadas à Voepass Linhas Aéreas por envolvimento na queda do turboélice ATR 72-500 em Vinhedo (SP), ocorrida em agosto de 2024. O acidente resultou na morte de todas as 62 pessoas a bordo. Entre os indiciados está o presidente da companhia, José Luiz Felício Filho.
Imputações criminais e responsabilidades
A maioria dos envolvidos, totalizando 15 pessoas, responde pelo crime de atentado contra a segurança do transporte aéreo, previsto no Artigo 261 do Código Penal. A pena para este delito varia de 4 a 12 anos de reclusão, podendo dobrar — chegando a 24 anos — quando há resultado morte.
O grupo de indiciados por este crime abrange a alta gestão e a operação técnica da empresa, incluindo:
- O diretor-presidente;
- O diretor de operações, o diretor de segurança operacional (safety) e o chefe dos pilotos;
- O diretor de manutenção, o chefe do Centro de Controle de Manutenção (MCC) e o inspetor técnico responsável perante a Anac;
- O diretor e o gerente do Centro de Controle Operacional (CCO);
- O mecânico que omitiu a realização de manutenção e o comandante do voo anterior ao acidente, que teria entregue a aeronave sem relatar falhas.
Uma pessoa, o comandante do voo realizado na madrugada do acidente com a mesma aeronave, foi indiciada por falsidade ideológica.
Falhas técnicas e cultura de omissão
A investigação da Polícia Federal concluiu que a aeronave não possuía condições técnicas para operar sob as condições de precipitação e formação de gelo severo enfrentadas. Equipamentos essenciais, como o sistema de degelo e o limpador do parabrisas, estavam inoperantes, apesar de a empresa ter autorizado a decolagem.
Durante o trajeto, os pilotos ignoraram avisos sonoros e o alerta de master caution do sistema de segurança, que indicavam a deterioração das condições de voo.
A PF identificou que a companhia mantinha uma cultura de omissão implementada pela gestão. Pilotos eram orientados pela direção de operações e pela chefia de pilotos a não reportar falhas nos relatórios pós-voo. Essa prática visava evitar que a aeronave fosse impedida de voar, mantendo a operação mesmo com problemas técnicos recorrentes.
Desdobramentos jurídicos e administrativos
A Polícia Federal solicitou à Justiça Federal o compartilhamento dos autos com a Anac e com a Procuradoria da República no Distrito Federal. O objetivo é apurar a existência de eventuais falhas de servidores públicos no processo de fiscalização da empresa.
No âmbito civil, a Associação de Familiares das Vítimas, por meio de seus advogados, planeja ajuizar uma ação coletiva por danos morais contra a Voepass. Familiares presentes na sede da PF em São Paulo classificaram a operação da companhia como criminosa e deliberada.