Aumento de óbitos em campo de refugiados no Congo levanta suspeitas de surto de ebola
Pelo menos 30 pessoas morreram desde maio no campo de deslocados de Kigonze, na República Democrática do Congo, com cinco casos confirmados de ebola. A província de Ituri concentra mais de 90% dos cerca de 900 casos do surto atual. O financiamento internacional para saneamento e higiene no país foi reduzido para US$ 38 milhões entre 2024 e 2025
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A República Democrática do Congo enfrenta um aumento atípico de óbitos no campo de deslocados de Kigonze, localizado em Bunia, no nordeste do país. Desde o início de maio, pelo menos 30 pessoas morreram no local, onde vivem mais de 15 mil refugiados de conflitos armados. A gravidade da situação é evidenciada pelo volume de sepultamentos: enquanto a média mensal do campo era de uma a três mortes, apenas nesta última semana dez moradores foram enterrados.
A suspeita de que o vírus ebola esteja circulando sem a devida detecção na região é reforçada por diagnósticos positivos confirmados em algumas das vítimas. Amostras coletadas de cinco pacientes atestaram a presença da doença, e outras fontes humanitárias confirmaram casos positivos entre os mortos recentes. Muitos dos falecidos apresentavam sintomas característicos, como vômitos, dor de cabeça e febre, incluindo crianças e uma mulher grávida.
O controle da epidemia, declarada oficialmente em 15 de maio, embora com óbitos anteriores, é dificultado pela resistência de familiares e moradores em permitir a realização de testes em pacientes e corpos. Esse cenário, somado à dificuldade de rastrear contatos, amplia o risco de que cadeias de transmissão permaneçam invisíveis. A província de Ituri, onde se situa Bunia, concentra mais de 90% dos aproximadamente 900 casos confirmados do surto atual, com registros de mortes também em outros campos de deslocados.
A propagação de doenças infecciosas é favorecida pelas condições precárias de Kigonze, onde famílias residem em barracas improvisadas com menos de um metro de distância entre si. A infraestrutura sanitária é insuficiente, com banheiros que transbordam frequentemente, facilitando a transmissão do ebola, que ocorre pelo contato com fluidos corporais, como fezes, sangue e vômito.
A crise sanitária coincide com uma queda drástica no financiamento internacional para água, saneamento e higiene na República Democrática do Congo. Entre 2024 e 2025, os recursos para essas ações foram reduzidos para cerca de US$ 38 milhões, pouco mais da metade do montante do ano anterior. Das verbas solicitadas pelas agências humanitárias para este ano, que somam US$ 80 milhões, apenas 21% foram efetivamente repassados.
Como consequência direta desses cortes, programas de construção de banheiros e abastecimento de água para populações deslocadas — que no leste do Congo superam 5 milhões de pessoas — foram interrompidos ou reduzidos. Atualmente, as autoridades de saúde tentam expandir a testagem e o monitoramento de contatos, mas enfrentam a instabilidade regional e a resistência local.