Casal francês recorre a testes de DNA para descartar parentesco biológico antes de união
Um casal francês, concebido por doação de esperma, realizou testes genéticos para descartar parentesco biológico diante da lei de anonimato da França. O processo resultou na identificação de irmãos e doadores, influenciando a mudança na legislação francesa para permitir o acesso à identidade dos progenitores a partir de abril de 2025
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/J/H/SXxjDRQWaLI8yR9YCKew/audrey-e-arthur-kermalvezen-se-conheceram-em-uma-reuniao-de-ativistas-concebidos-por-doadores.jpeg)
Um casal francês, Arthur Kermalvezen e Audrey, enfrentou barreiras legais e dilemas genéticos para confirmar se possuíam parentesco biológico antes de consolidarem sua união. Ambos foram concebidos por meio de doação de esperma, o que gerou a incerteza sobre a possibilidade de serem meio-irmãos, dada a natureza anônima dos doadores no sistema de saúde da França.
A situação foi agravada pela legislação francesa vigente desde 1994, que criminaliza a posse de kits de teste de DNA domésticos e garante o anonimato dos doadores. Sob essa lei, a solicitação de exames genéticos é restrita a juízes, médicos ou cientistas de pesquisa, e a posse de testes caseiros pode resultar em multas superiores a € 3,5 mil (R$ 22,2 mil). Devido a essas restrições, empresas globais de ancestralidade, como MyHeritage, Ancestry e 23andMe, não operam no país.
A busca por respostas e o conflito jurídico
Audrey, que é advogada e nasceu em 1979 — antes da implementação da lei de anonimato —, tentou esgotar as vias judiciais para obter informações sobre seu progenitor. Ela questionou a Justiça francesa sobre a sobrevivência do doador e a quantidade de doações realizadas, buscando entender se Arthur poderia ser seu parente. No entanto, em 2015, a corte administrativa de maior hierarquia da França rejeitou seu recurso final.
Para obter a resposta, o casal recorreu a um médico no sul da França que, mediante o pagamento de € 900 (R$ 5,3 mil), realizou um teste genético. O profissional constatou que os doadores de Arthur e Audrey nasceram em anos diferentes, descartando a possibilidade de serem o mesmo homem. Apesar disso, a descoberta evidenciou uma contradição no sistema: o médico detinha informações biológicas sobre os pacientes que a própria lei proibia de serem reveladas aos interessados.
Impactos dos testes genéticos e novas descobertas
Mesmo com a negativa inicial, o casal eventualmente utilizou um teste de DNA doméstico para descartar qualquer outro tipo de parentesco, como o de primos. O resultado confirmou a ausência de relação genética entre eles e permitiu que Arthur localizasse seu doador biológico no Natal de 2017.
Para Audrey, a revelação foi mais impactante. O exame revelou que Sophie, uma cliente que ela havia defendido judicialmente, era sua irmã biológica. Ao comparar seus dados com outros oito ativistas, descobriu-se que quatro deles — Audrey, seu irmão Peter, Sophie e David — compartilhavam o mesmo doador.
Anos depois, Audrey identificou seu doador como Philippe, um cidadão americano já falecido. O contato com a família de Philippe proporcionou a Audrey acesso a fotografias, filmagens e ao histórico médico de sua linhagem biológica.
Mudanças na legislação francesa
A mobilidade jurídica liderada por Audrey, somada ao relato escrito por Arthur em um livro, impulsionou alterações nas normas de concepção assistida na França. A partir de abril de 2025, pessoas concebidas por doadores terão o direito de acessar a identidade de seus progenitores ao atingirem a maioridade.
Apesar do avanço, a proibição de testes de DNA domésticos permanece. Ativistas do grupo DNA Pass estimam que mais de um milhão de franceses já tenham burlado a lei, importando kits de países vizinhos ou por meio de terceiros, mantendo a discussão sobre a privacidade genética versus o direito à identidade biológica.