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Cientistas alertam a FCC sobre os impactos de satélites que iluminam a Terra durante a noite

08 de Abril de 2026 às 15:10

A FCC analisa propostas da Reflect Orbital para satélites de iluminação noturna e o plano da SpaceX de lançar 1 milhão de satélites de IA. Pesquisadores alertam que os projetos aumentariam a poluição luminosa, afetando ciclos biológicos, a saúde humana e ecossistemas. As entidades científicas solicitam a criação de limites de brilho e a realização de avaliações ambientais

A Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC) analisa propostas para a instalação de satélites com espelhos refletivos capazes de iluminar áreas específicas da Terra durante a noite. O projeto, apresentado pela startup Reflect Orbital, prevê o redirecionamento da luz solar para criar feixes de até 6 quilômetros de largura, com intensidade variando entre o brilho de uma lua cheia e a luminosidade do meio-dia. A empresa justifica a tecnologia como ferramenta para ampliar a geração de energia solar noturna, viabilizar obras de infraestrutura e auxiliar em resgates de emergência.

A iniciativa ocorre simultaneamente a um plano da SpaceX de lançar até 1 milhão de satélites para formar uma rede orbital de processamento de inteligência artificial. O objetivo da companhia é transferir a carga computacional de data centers terrestres para o espaço, visando a redução do consumo energético na superfície. Contudo, a implementação multiplicaria drasticamente o volume de objetos artificiais em órbita baixa, elevando a poluição luminosa.

A comunidade científica reagiu com alertas enviados ao órgão regulador americano. Presidentes de quatro sociedades internacionais, representando 2,5 mil pesquisadores, argumentam que tais projetos causariam uma alteração significativa no ambiente natural de luz noturna em escala planetária. Dados de organizações ambientais indicam que a quantidade atual de satélites já elevou o brilho difuso do céu noturno em 10%, com a tendência de crescimento contínuo até 2035. Em certas regiões, a densidade de objetos orbitais já supera a quantidade de estrelas visíveis a olho nu.

As repercussões biológicas e ambientais são o ponto central das críticas. A eliminação da escuridão natural interfere nos sistemas circadianos de humanos e animais, afetando a produção hormonal e desorganizando rotas migratórias. O geneticista Charalambos Kyriacou, da Universidade de Leicester, destaca que a ausência da noite pode comprometer a segurança alimentar, uma vez que as plantas dependem da escuridão para seus ciclos vitais. A pesquisadora Tami Martino, da Universidade de Guelph, reforça que organismos vivos possuem sensibilidade extrema a níveis de luz imperceptíveis para os humanos, o que pode gerar impactos desconhecidos em ecossistemas, florestas e oceanos.

No âmbito da saúde humana, entidades especializadas em sono alertam que a exposição contínua à luz noturna prejudica a produção de melatonina, hormônio essencial para a regulação do sono e vigília. Essa desregulação está associada ao aumento de riscos de obesidade, diabetes, depressão, câncer e distúrbios do sono, afetando bilhões de pessoas.

Diante desse cenário, as organizações científicas solicitam que a FCC estabeleça limites para o brilho artificial e exija avaliações ambientais completas antes de qualquer aprovação, tratando a poluição luminosa orbital com a mesma urgência dedicada à poluição do ar e da água.

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