Desalinização torna-se pilar da infraestrutura hídrica global para enfrentar a escassez de água potável
Mais de 20 mil plantas de dessalinização atendem centenas de milhões de pessoas globalmente para garantir a segurança hídrica. O sistema apresenta alta demanda energética e gera resíduos salinos que podem prejudicar ecossistemas marinhos. A expansão da tecnologia ocorre paralelamente a recomendações de gestão de consumo e reaproveitamento de água
A transformação de água do mar em potável deixou de ser uma medida excepcional para se tornar um pilar da infraestrutura hídrica global. Impulsionada por secas severas, chuvas irregulares e a pressão sobre reservatórios, a desalinização agora sustenta cidades, ilhas e regiões inteiras, especialmente em zonas costeiras com rápido crescimento populacional e áreas áridas onde rios e aquíferos são insuficientes.
Atualmente, a tecnologia opera em mais de 20 mil plantas distribuídas por dezenas de países, atendendo centenas de milhões de pessoas. Esse avanço foi viabilizado pelo aprimoramento de sistemas que removem o sal com maior eficiência, reduzindo barreiras técnicas e tornando a operação financeiramente viável em mercados que anteriormente consideravam o processo excessivamente caro. Com isso, a desalinização migrou de um recurso de crise para um componente permanente da segurança hídrica urbana.
Entretanto, a expansão do modelo impõe custos crescentes a governos e populações. O principal entrave é a alta demanda energética necessária para a produção de água, o que sobrecarrega as redes elétricas e eleva os custos operacionais. Em países dependentes desse sistema, o aumento da produção de água caminha junto ao crescimento da demanda elétrica, intensificando a pegada de carbono do setor e dificultando a conciliação entre a segurança hídrica e as metas ambientais em meio à crise climática.
Além do impacto energético, a atividade gera resíduos concentrados de sal que, ao serem devolvidos ao oceano, podem alterar as condições da água e prejudicar ecossistemas marinhos e organismos sensíveis. O risco é ampliado em faixas litorâneas onde múltiplas plantas operam simultaneamente ou em regiões com baixa circulação de água, transformando um problema local em um impacto ambiental de escala costeira.
Diante desse cenário, a recomendação é que a desalinização não seja a única resposta para a escassez. Estratégias como a redução de perdas, o reaproveitamento de água e a gestão eficiente do consumo podem apresentar custos menores e menor exigência energética. A tecnologia permanece essencial onde não há alternativas, mas sua eficácia é maior quando integrada a um conjunto de soluções diversificadas.
A tendência de crescimento da infraestrutura de desalinização deve continuar, movida pela urbanização costeira e pela necessidade de diversificar o abastecimento. Contudo, essa expansão agora enfrenta um monitoramento mais rigoroso e a necessidade de regras rígidas de planejamento. Para o cidadão, a garantia do abastecimento via dessalinização reflete-se diretamente na pressão sobre as tarifas de água e nas decisões estratégicas de planejamento público para as cidades do litoral.