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Equador torna-se ponto estratégico para o trânsito de cocaína com destino aos Estados Unidos e Europa

02 de Agosto de 2026 às 06:02

O Equador tornou-se rota de 70% da cocaína enviada aos EUA e Europa, registrando 9,2 mil mortes no ano passado. Em Durán, a polícia enfrenta a infiltração do crime organizado em instituições e o recrutamento de menores. Autoridades locais afirmam que os assassinatos na cidade caíram pela metade no primeiro semestre do ano

Equador torna-se ponto estratégico para o trânsito de cocaína com destino aos Estados Unidos e Europa
Lee Durant/BBC

O Equador tornou-se um ponto estratégico no tráfico global de entorpecentes, com cerca de 70% da cocaína destinada aos Estados Unidos e à Europa transitando pelo país. A região, que anteriormente era vista como um destino turístico pacífico, transformou-se em um campo de batalha em apenas uma década, impulsionada pela porosidade das fronteiras com Colômbia e Peru — os maiores produtores mundiais — e pela extensa costa no Oceano Pacífico.

A violência escalou drasticamente, atingindo a marca de 9,2 mil mortes no ano passado, segundo dados do Ministério do Interior equatoriano. Embora o governo de Daniel Noboa tenha implementado medidas de repressão rigorosas nos últimos dois anos, críticos argumentam que a prisão de lideranças criminosas fragmentou as organizações, resultando na multiplicação de gangues menores e mais agressivas.

A guerra urbana em Durán

Na cidade de Durán, o cenário é dominado por grupos como os Los Águilas. A operação policial na região enfrenta desafios que vão além do confronto armado, incluindo a infiltração do crime organizado nas instituições. Policiais relatam que a corrupção atinge esferas da política, do Estado e da própria força policial, com agentes recebendo pagamentos de gangues para atuar como informantes.

O capitão Jean Carlos Bustamante, veterano das forças especiais, exemplifica a rotina de risco na cidade. Em incursões em bairros pobres, a polícia utiliza aríetes para derrubar portas de casas abandonadas, onde frequentemente encontra arsenais compostos por pistolas e metralhadoras. Para Bustamante, a disparidade de recursos é evidente: as gangues possuem maior poder financeiro e bélico do que o próprio Estado.

O ciclo do microtráfico e a impunidade

A estrutura do crime em Durán opera em diferentes níveis. Enquanto as grandes rotas alimentam o mercado internacional, o microtráfico sustenta a economia local. Em operações recentes, a polícia utilizou drones para localizar vendedores de pequenas quantidades de drogas, como misturas de heroína vendidas por cerca de US$ 1 (aproximadamente R$ 5,10).

Entretanto, a eficácia dessas prisões é comprometida por falhas no sistema judiciário. Policiais afirmam que a corrupção em promotorias e tribunais resulta na liberação rápida de suspeitos, que frequentemente retornam ao crime e cometem novos homicídios. A capacidade financeira das gangues permite a "compra" de juízes e legisladores, criando um ambiente de impunidade.

Recrutamento e a cultura da violência

O crime organizado no Equador também se sustenta através do recrutamento precoce. Defensores dos direitos humanos alertam que crianças de 12 anos podem ser cooptadas por gangues, tornando-se matadores de aluguel aos 15 anos.

Líderes locais de gangues admitem a prática de manter policiais na folha de pagamento — com custos mensais entre US$ 1,5 mil e US$ 2 mil — para servirem como sistemas de alerta. A dinâmica dessas organizações é pautada por conflitos territoriais e vinganças, onde a morte de rivais é vista como a única forma de resolução.

Apesar do clima de terror, onde moradores evitam denunciar crimes por medo, autoridades locais em Durán alegam progressos. Segundo a polícia, o índice de assassinatos na cidade teria caído pela metade nos primeiros seis meses do ano, com a redução de crimes bárbaros, como decapitações e esquartejamentos, que eram comuns nas ruas.

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