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Escócia reduz índices de criminalidade ao tratar a violência como uma questão de saúde pública

27 de Julho de 2026 às 09:30

A Escócia reduziu seus índices de criminalidade ao tratar a violência como saúde pública por meio da Scottish Violence Reduction Unit, criada em 2005. A estratégia integra hospitais, escolas e apoio social para intervir em ciclos de agressividade. O modelo, financiado anualmente em £ 1,1 milhão, tornou-se referência global

Escócia reduz índices de criminalidade ao tratar a violência como uma questão de saúde pública
Getty Images via BBC

A Escócia transformou sua realidade ao deixar de tratar a criminalidade apenas como um caso de polícia e Justiça, passando a encarar a violência como uma questão de saúde pública. Essa mudança de paradigma permitiu que o país, que já foi considerado pela ONU como o mais violento do mundo desenvolvido, reduzisse drasticamente seus índices de criminalidade, situando-se hoje com taxas de homicídios per capita inferiores às da França, Suécia e do conjunto de Inglaterra e País de Gales.

A estratégia de redução da violência

O ponto de virada ocorreu com a criação da Scottish Violence Reduction Unit (SVRU), em 2005. A unidade nasceu da percepção de que a maioria dos homicídios em Glasgow — que entre 2003 e 2005 teve a maior taxa de assassinatos da Europa — não eram crimes premeditados ou do crime organizado, mas frutos de brigas impulsivas que escalavam para o uso de facas.

A abordagem da SVRU foi comparada ao combate a doenças infecciosas: tratar os "doentes" (quem já cometeu crimes), vacinar os grupos vulneráveis e impedir a propagação da violência na comunidade. Para isso, a unidade passou a atuar fora das delegacias, integrando-se a:

  • Hospitais e clínicas: Profissionais de saúde, como dentistas, foram treinados para identificar e encaminhar vítimas de violência.
  • Escolas: Houve uma redução drástica nas expulsões escolares, que caíram de quase 45 mil em 2006/07 para menos de 12 mil em 2022/23.
  • Apoio Social: Implementação de grupos de apoio para pais e intervenções precoces para romper ciclos geracionais de agressividade.

Intervenções e impacto social

Uma das ações mais emblemáticas foram as "sessões de autorreferência". Em um evento marcante no Tribunal do Xerife de Glasgow, em outubro de 2008, 85 membros de gangues rivais ouviram depoimentos de cirurgiões e famílias de vítimas para conscientizá-los sobre a brutalidade dos ataques. A iniciativa, inspirada em modelos de Chicago e Cincinnati, ofereceu um canal de saída para os jovens; de 473 participantes em dez encontros, quase 400 buscaram ajuda para abandonar a vida criminosa.

A rede de apoio foi ampliada com a criação da organização Medics Against Violence, que implementou o programa Hospital Navigators. O projeto foca no acolhimento imediato de feridos em prontos-socorros, evitando que a assistência termine apenas no tratamento do trauma físico, como o conhecido Glasgow smile (corte facial da boca à orelha).

Reconhecimento e novos desafios

O modelo escocês tornou-se referência global. Desde 2019, 20 áreas policiais da Inglaterra e do País de Gales, incluindo Londres, implementaram suas próprias Unidades de Redução da Violência (VRUs). Atualmente, a SVRU é financiada pelo governo escocês com um orçamento anual de £ 1,1 milhão.

Apesar do sucesso, a redução da violência grave apresentou desaceleração recentemente. O diretor da SVRU, Jimmy Paul, aponta que a falta de espaços seguros para jovens, a pobreza (que afeta quase 25% das crianças escocesas), os impactos da pandemia de Covid-19 e a influência das redes sociais são os novos obstáculos.

Além disso, observa-se uma mudança no perfil demográfico dos crimes: a maioria dos acusados de homicídio agora tem entre 30 e 40 anos, afastando-se do perfil de adolescentes e jovens adultos que predominava anteriormente, o que exigirá a adaptação de novas estratégias de combate.

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