Estados Unidos e Irã mantêm impasse militar e econômico no Estreito de Ormuz
Estados Unidos e Irã mantêm impasse militar e econômico no Estreito de Ormuz há quase quatro meses. Washington bloqueia exportações de petróleo iraniano, enquanto Teerã cobra taxas para a passagem de navios. O conflito gera perdas diárias de 435 milhões de dólares ao comércio do Irã e pressões diplomáticas de aliados do Golfo
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A crise no Estreito de Ormuz, que se aproxima de quatro meses, mantém Estados Unidos e Irã em um impasse militar e econômico marcado por bloqueios mútuos. Enquanto Teerã exige taxas de até dois milhões de dólares para garantir a passagem segura de navios, Washington impõe um bloqueio naval para impedir a exportação de petróleo iraniano. Apesar de algumas embarcações iranianas conseguirem transitar e empresas asiáticas aceitarem pagar os pedágios — prática que fere o direito marítimo internacional —, as medidas de ambos os lados não produziram resultados decisivos.
As tentativas de reabrir a via marítima por meio de negociações entre as duas potências têm falhado, elevando o risco de um conflito regional. Mesmo com a mediação do Paquistão e a proposta de um memorando para encerrar as hostilidades, não houve recuo nas posições. A estratégia de Donald Trump de utilizar ameaças militares para pressionar o Irã pode ter gerado o efeito oposto, sendo interpretada por Teerã como uma hesitação dos Estados Unidos em escalar a guerra.
Internamente, o governo americano enfrenta pressão para evitar novas ofensivas militares. Aliados do Golfo, como Catar, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, pedem moderação. Esse cenário é agravado pela alta nos preços do petróleo e pela inflação doméstica nos EUA, fatores que pesam politicamente antes das eleições legislativas de meio de mandato em novembro.
Do lado iraniano, o impacto econômico é severo. O bloqueio dos Estados Unidos, que completou 40 dias em 23 de maio, resultou em perdas estimadas em 17 bilhões de dólares para as finanças públicas. Somando-se a isso, ataques de Israel e dos EUA nas semanas iniciais do conflito causaram danos de 144 bilhões de dólares. Atualmente, o Irã perde cerca de 435 milhões de dólares diários em comércio, sendo que dois terços desse montante referem-se a exportações, principalmente de petróleo bruto.
Embora o Irã tenha obtido vantagens pontuais com ataques de mísseis contra navios e vizinhos do Golfo, a interrupção de suas exportações revela a vulnerabilidade da economia do regime. A inflação anual no país já superou os 54%, com a dobra de preços de diversos alimentos, e a população enfrenta um apagão de internet que dura mais de 80 dias.
Os Estados do Golfo, economicamente expostos e avessos ao risco, coordenam a pressão por uma solução diplomática. Eles alertam que a manutenção do conflito prejudica projetos industriais e turísticos bilionários destinados a diversificar suas economias para além dos combustíveis fósseis. Por isso, apoiam as negociações do Paquistão e a iniciativa conjunta entre ONU e EUA para reabrir o Estreito sem a cobrança de taxas ou reivindicações de controle por parte de Teerã.
O Irã, contudo, utiliza a crise para tentar remodelar a ordem regional, buscando a expulsão dos Estados Unidos do Golfo para estabelecer um sistema de segurança sob sua influência. Em contrapartida, Washington condiciona a reabertura total do Estreito ao fim de toda atividade de enriquecimento nuclear iraniano, sem promessas de alívio nas sanções sem concessões significativas. O secretário de Estado, Marco Rubio, mantém a ação militar como uma opção viável.
A complexidade do cenário reside no fato de que não há um alvo estratégico que force a rendição imediata do regime iraniano; ataques a infraestruturas civis poderiam, inclusive, provocar retaliações severas contra os países do Golfo. Enquanto para Trump a resolução do conflito é vista como parte de seu legado presidencial, para o governo iraniano a disputa é tratada como uma questão de sobrevivência do regime.