Giorgia Meloni e Donald Trump entram em conflito público após trocas de acusações mútuas
A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, trocaram acusações públicas após divergências sobre a cúpula do G7 e a conduta do republicano com o papa Leão XIV. O conflito envolve críticas a tarifas comerciais, a anexação da Groenlândia e a ofensiva militar contra o Irã. Meloni proibiu o uso de base aérea na Sicília por caças norte-americanos e anunciou a não renovação de acordo de defesa com Israel
A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, entraram em um conflito público após trocas de acusações sobre a conduta de ambos. O atrito mais recente ocorreu nesta sexta-feira (19), quando Meloni classificou como "completamente inventada" a afirmação de Trump, feita à TV La7, de que a premiê teria implorado por uma foto com ele durante a cúpula do G7. Na ocasião, a líder italiana também criticou a postura do republicano, alegando que ele demonstra mais deferência aos inimigos do Ocidente do que aos antigos aliados.
O desgaste na relação, que já havia sido marcada por proximidade ideológica em temas como o combate à imigração ilegal e a crítica a pautas progressistas, intensificou-se recentemente. Um ponto de ruptura ocorreu após Trump chamar o papa Leão XIV de “fraco” no domingo (12), por condenar a guerra no Irã. Meloni criticou a fala do presidente norte-americano, o que gerou uma resposta de Trump ao jornal Corriere della Sera, onde ele afirmou estar “chocado” com a postura da premiê e questionou a coragem da líder.
O distanciamento entre os dois começou a se desenhar meses antes, inicialmente por divergências econômicas. Em abril do ano passado, Meloni rebateu a decisão de Trump de impor tarifas comerciais a diversos países, incluindo aliados europeus, classificando a medida como errada. Posteriormente, em janeiro, a premiê adotou um tom cauteloso ao tratar da intenção de Trump de anexar a Groenlândia, afirmando que não concordaria com uma eventual ação militar na região, embora tenha reconhecido a importância estratégica do território.
A tensão escalou em fevereiro, durante a ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o Irã. A Itália foi surpreendida pela operação, que resultou no resgate do ministro da Defesa italiano, que estava de férias nos Emirados Árabes, em um jato militar. Diante da impopularidade da guerra entre os italianos e do aumento nos preços de energia, Meloni condenou a ação, afirmou que a Itália não participaria do conflito e proibiu o uso de uma base aérea na Sicília por caças norte-americanos. O ministro da Defesa italiano chegou a declarar que o ataque ocorreu fora das normas do direito internacional.
A crise política interna também influenciou a dinâmica entre os líderes. Após ser derrotada em um referendo sobre a reforma do Judiciário, Meloni teria buscado sinalizar um afastamento de Trump para mitigar a impopularidade de ambos entre os eleitores italianos. Como parte desse movimento, a premiê anunciou na terça-feira (14) que a Itália não renovaria um acordo de defesa com Israel, decisão tomada após disparos de advertência atingirem um comboio italiano da ONU no sul do Líbano.
Apesar da deterioração pessoal, que Trump confirmou em entrevista à Fox News, setores do governo italiano tentam minimizar os impactos diplomáticos. O ministro Adolfo Urso defendeu que a aliança entre os dois países permanece sólida dentro das instituições internacionais e da Aliança Atlântica. No mesmo sentido, a ex-embaixadora Mariangela Zappia atribuiu a impulsividade de Trump a uma frustração com a Europa em relação ao Irã, reiterando que a Europa vê os Estados Unidos como um aliado histórico, embora deseje participar das decisões estratégicas.