Guterres classifica a situação do Haiti como a crise mais grave do hemisfério ocidental
O secretário-geral da ONU, António Guterres, definiu a situação do Haiti como a crise mais grave do hemisfério ocidental. O país registra 2,3 mil mortes em 2024, com mais de metade da população dependendo de ajuda alimentar. Para conter a violência de gangues, a ONU aprovou o envio de até 5,5 mil soldados internacionais
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/k/E/5LezFFT0u8BE54YQYAgQ/77590032-605.webp)
António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas, classificou a situação do Haiti como a crise mais grave do hemisfério ocidental durante visita oficial ao país. Em escala global, a gravidade do cenário caribenho é superada apenas pelos conflitos no Sudão e nos Territórios Palestinos.
O colapso é impulsionado pela atuação de gangues armadas que dominam a população, resultando em 2,3 mil mortes apenas em 2024. De acordo com a ONG Igarapé, o país liderou o ranking mundial de homicídios no corrente ano. A violência atinge severamente grupos vulneráveis: no primeiro trimestre, a média diária de agressões contra mulheres e meninas superou 20 casos, enquanto o recrutamento infantil por grupos criminosos triplicou, fazendo com que crianças representem metade dos integrantes dessas organizações.
A insegurança forçou 1,5 milhão de pessoas a buscarem refúgio no interior do país. Atualmente, mais de metade dos 11,7 milhões de habitantes do Haiti, a nação mais pobre das Américas, depende de assistência humanitária para a alimentação.
A instabilidade política e a fragilidade do Estado facilitam a criminalidade. O Haiti não realiza eleições desde 2016, e o país ainda sente os reflexos do assassinato do ex-presidente Jovenel Moïse, ocorrido em julho de 2021. No início de 2024, a escalada da violência provocou a renúncia do primeiro-ministro não eleito, que foi sucedido por um conselho presidencial interino. Após a expiração do mandato desse conselho em fevereiro, o Executivo passou para o primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé.
A vulnerabilidade do Haiti é acentuada por sua posição estratégica, com portos, estradas precárias e pistas clandestinas que favorecem o contrabando de drogas, munições e armas. Como a economia depende fortemente de importações, as gangues controlam as cadeias de suprimentos e extorquem rotas comerciais e de ajuda humanitária, detendo maior poder bélico que as forças de segurança nacionais.
Para reverter o quadro, a ONU aprovou em setembro passado a Força de Repressão de Gangues (GSF), que prevê até 5,5 mil soldados internacionais para atuar junto à polícia e às Forças Armadas locais. Até o momento, Jamaica, Chade, El Salvador e Guatemala enviaram menos de mil militares, com a operação prevista para iniciar nas próximas semanas.
Apesar da urgência, Guterres apontou que o programa humanitário da ONU para o Haiti é o menos financiado da entidade. Dos 880 milhões de dólares previstos para enfrentar a crise, apenas 24% foram arrecadados, levando o secretário-geral a cobrar que a comunidade internacional cumpra os compromissos assumidos com a nação.