Igreja Católica pede perdão a comunidades indígenas no Peru por roubo de terras e perseguição
Representantes da Igreja Católica pediram perdão a camponeses indígenas em Catacaos, no Peru, por perseguições e roubo de terras ligadas ao Sodalício de Vida Cristã. O Vaticano pretende indenizar as vítimas utilizando a liquidação dos ativos econômicos do grupo religioso
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Representantes da Igreja Católica pediram perdão, em um gesto público de joelhos, a comunidades camponesas no noroeste do Peru, herdeiras do povo indígena Tallán. A cerimônia ocorreu na cidade de Catacaos, durante uma missa celebrada para a comunidade San Juan Bautista, após um processo de escuta conduzido pelo monsenhor Jordi Bertomeu, enviado especial do Vaticano.
O pedido de desculpas está vinculado a denúncias de perseguição e roubo de terras perpetradas por empresas ligadas ao Sodalício de Vida Cristã. O grupo religioso ultraconservador, fundado em 1971 por Fernando Figari, foi suprimido pelo papa Francisco em abril de 2025, após investigações sobre corrupção e abusos sexuais. O monsenhor Bertomeu admitiu que a Igreja demorou duas décadas para agir e classificou o Sodalício como uma estrutura abusiva.
O conflito territorial remonta a 1998, quando teria ocorrido uma transferência fraudulenta de quase 10 mil hectares de terras da comunidade San Juan Bautista. Os camponeses, que reivindicam a posse coletiva baseada em direitos pré-coloniais e do período do Vice-Reino do Peru, afirmam que a assembleia que teria autorizado a venda foi forjada, com a inclusão de nomes de pessoas já falecidas.
Essas terras teriam sido repassadas sucessivamente a outras empresas, chegando à Asociación Civil San Juan Bautista (ACSJB), ligada ao Sodalício e fundada pelo ex-arcebispo de Piura, José Antonio Eguren. Embora Eguren tenha negado envolvimento em tráfico de terras e a ACSJB afirme que as aquisições em 2012 seguiram a lei peruana, o Vaticano suspeita que o grupo religioso utilizava estruturas jurídicas de fachada e laranjas para operar economicamente.
A tensão escalou em dezembro de 2011, quando a instalação de cercas em terrenos da comunidade resultou em confrontos com tiros. O episódio causou a morte de Guadalupe Zapata Sosa, reconhecido pelo Vaticano como um líder indígena que morreu ao se opor ao tráfico de terras vinculado ao Sodalício.
No âmbito jurídico, a situação das comunidades permanece complexa. Apesar do arquivamento de processos contra os camponeses em 2022, a Justiça peruana rejeitou, em maio de 2026, uma ação de amparo constitucional que buscava a restituição das terras. O tribunal considerou a disputa como uma controvérsia legal entre particulares, e não constitucional. A defesa dos camponeses argumenta que, por serem indígenas, deveriam ter a proteção do Convênio 169 da OIT, que exige consulta prévia para a transferência de territórios.
Atualmente, a comunidade San Juan Bautista está integrada à Base de Dados de Povos Indígenas do Ministério da Cultura do Peru e planeja recorrer ao Tribunal Constitucional. Caso não obtenham sucesso, as famílias avaliam levar a denúncia a organismos internacionais.
Como parte do processo de reparação, o Vaticano prometeu compensações não apenas simbólicas, mas também financeiras. O monsenhor Bertomeu informou que a Santa Sé pretende utilizar a liquidação dos ativos econômicos do Sodalício para indenizar as vítimas dos danos causados.