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Las Vegas sedia primeira edição de evento esportivo que permite o uso de substâncias proibidas

21 de Maio de 2026 às 12:21

Las Vegas sedia neste final de semana a primeira edição dos Enhanced Games, competição de natação, levantamento de peso e corrida que permite o uso de substâncias proibidas. O evento, apoiado por investidores como Christian Angermayer e Peter Thiel, sofre críticas e sanções de entidades como o COI, a Wada e a World Aquatics

Las Vegas sedia primeira edição de evento esportivo que permite o uso de substâncias proibidas
BBC Sport

Las Vegas será o palco, neste final de semana, da edição inaugural dos Enhanced Games, evento esportivo que permite a atletas o uso de substâncias proibidas para aprimorar o desempenho físico. A competição, que reúne modalidades como natação, levantamento de peso e corrida de velocidade, propõe a exploração do potencial humano e a celebração da inovação científica, contrastando com as normas rigorosas do esporte convencional.

A preparação para os jogos incluiu um campo de treinamento de luxo em Abu Dhabi, onde cerca de 40 atletas passaram por protocolos de aprimoramento personalizados. Em um hospital próximo ao resort, foram administradas substâncias vetadas pela Agência Mundial Antidoping (Wada), incluindo testosterona, hormônios de crescimento (HGH e EPO), esteroides anabolizantes como nandrolona e metenolona, além de estimulantes e moduladores metabólicos. Os organizadores afirmam que tais substâncias foram aprovadas pela Food and Drug Administration (FDA) dos EUA e aplicadas sob supervisão médica em ensaios clínicos.

A iniciativa enfrenta forte resistência de entidades globais. O Comitê Olímpico Internacional (COI) e a Wada classificaram o conceito como irresponsável e imoral. A World Aquatics já baniu de suas competições qualquer pessoa envolvida nos Enhanced Games, enquanto Sebastian Coe, presidente da World Athletics, criticou duramente os participantes. No Reino Unido, a UK Sport alertou que atletas que integrem o evento poderão perder financiamento e apoio técnico por violarem as políticas de elegibilidade.

Os defensores dos jogos argumentam que o sistema esportivo atual não remunera adequadamente os atletas e que a luta contra o doping é ineficaz e dispendiosa, empurrando a prática para a clandestinidade. Para os organizadores, a abertura controlada ao uso de substâncias seria preferível. David Howman, ex-líder da Wada e atual presidente da Unidade de Integridade do Atletismo, chegou a admitir que o sistema antidoping estagnou e não é plenamente eficaz na captura de trapaceiros, embora pesquisas indiquem que a maioria do público ainda apoie a proibição do doping.

Além da competição, o projeto funciona como uma plataforma de negócios. O cofundador e principal acionista, o investidor alemão Christian Angermayer, vê o evento como uma ferramenta de marketing para expandir o mercado de biotecnologia de consumo e medicina personalizada, promovendo terapias de reposição hormonal e suplementos de longevidade. O grupo conta com o apoio financeiro de Peter Thiel e do fundo 1789 Capital, do qual Donald Trump Jr. é sócio.

A polêmica se estende aos riscos à saúde. Especialistas, como o professor Ian Boardley, da Universidade de Birmingham, alertam para o aumento de riscos de problemas psiquiátricos e ataques cardíacos, classificando as garantias de supervisão médica como enganosas. Jane Rumble, presidente-executiva da UK Antidoping (Ukad), destaca que o evento envia uma mensagem perigosa ao omitir os riscos significativos das substâncias de melhoria de desempenho.

Por outro lado, atletas como o nadador olímpico James Magnussen argumentam que o esporte de elite já envolve riscos inerentes à saúde devido ao treinamento extremo. Pesquisadores como Byron Hyde sugerem que os Enhanced Games apenas tornam explícito o desejo do público por entretenimento, independentemente dos danos físicos sofridos pelos atletas.

Apesar da ambição de se tornar uma franquia valiosa, a aceitação popular é incerta. Uma pesquisa da Ukad revelou que 66% dos pais não assistiriam ao evento nem permitiriam que seus filhos o fizessem. A secretária de Cultura do Reino Unido, Lisa Nandy, descreveu a competição como um "espetáculo secundário". No campo dos resultados, a expectativa gira em torno da superação de recordes não oficiais, como o do nadador grego Kristian Gkolomeev, que utilizou substâncias e trajes proibidos em testes anteriores, embora sua marca já tenha sido batida por um nadador que não utiliza aprimoramentos.

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