Maine suspende licenças para novos data centers de grande porte até 2027
O estado do Maine suspendeu até novembro de 2027 a concessão de licenças para novos data centers com carga a partir de 20 megawatts. A medida visa analisar os impactos energéticos, hídricos e econômicos dessas estruturas por meio de um conselho coordenador. Outros estados americanos também discutem a revisão de incentivos e limites para conter o consumo de recursos
A expansão acelerada de data centers nos Estados Unidos, impulsionada pela demanda por inteligência artificial (IA) e computação em nuvem, encontrou barreiras políticas devido ao alto consumo de energia, pressão sobre a rede elétrica e uso intensivo de água. O estado do Maine tornou-se o epicentro desse debate ao aprovar um projeto legislativo que suspende, até 1º de novembro de 2027, a concessão de licenças e permissões para novos empreendimentos com carga a partir de 20 megawatts — volume capaz de abastecer entre 15 mil e 20 mil residências.
A medida, proposta pela deputada estadual Melanie Sachs, visa garantir o planejamento urbano e energético antes da implementação de projetos em escala industrial. Para viabilizar essa análise, foi criado o Maine Data Center Coordination Council, órgão que entregará em 2027 um relatório sobre os impactos dessas estruturas na economia local, no uso do solo e nos recursos hídricos e energéticos. A resistência no Maine é acentuada por tarifas residenciais de energia superiores à média americana, o que gera receio de que a expansão da rede elétrica para atender grandes consumidores seja financiada indiretamente pelos consumidores comuns.
Esse cenário reflete uma tendência em outros estados, como Virgínia, Geórgia, Oklahoma e Maryland, onde legisladores discutem a revisão de incentivos fiscais e a criação de limites para evitar que os custos de conexão e transmissão sejam socializados. A urgência do debate cresceu com a nova geração de data centers para IA, que opera em escala superior aos centros tradicionais. Planos em tramitação nos Estados Unidos previam a adição de mais de 150 gigawatts de capacidade energética, volume que pode equiparar o consumo de certas instalações ao de cidades inteiras.
Além da eletricidade, a pegada hídrica tornou-se um ponto crítico. Um estudo da Universidade da Califórnia em Riverside estimou que a interação com sistemas como o ChatGPT — especificamente entre 20 e 50 perguntas — pode estar associada ao consumo de 500 mililitros de água, considerando o resfriamento de servidores e a geração de energia.
Enquanto gigantes como Google, Amazon, Meta e Microsoft expandem suas operações, a reação de autoridades e comunidades questiona se os benefícios econômicos justificam a pressão sobre os recursos locais. Atualmente, a Virgínia é o principal polo do setor com 582 data centers, enquanto o Maine possui apenas 10.
A discussão começa a ecoar no Brasil, onde projetos de grande porte despertam alertas semelhantes. No Ceará, a ByteDance, controladora do TikTok, avaliou a instalação de um data center com demanda inicial de 300 MW, podendo chegar a 900 MW. Paralelamente, propostas de complexos de IA no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná e Minas Gerais geram preocupações sobre o consumo energético equivalente ao de milhões de residências.