Mulheres criam conteúdo nas redes sociais sobre a rotina de quem vive sem amigos
Mulheres criam conteúdo nas redes sociais sobre a rotina de quem vive sem amigos e prioriza a solitude. A tendência, exemplificada por criadoras como Lana Isa, gera conexão com usuários, mas enfrenta críticas que associam o estilo de vida ao derrotismo. Especialistas alertam que, embora a autenticidade atraia, a conexão social é essencial para a saúde física e mental
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Um novo nicho de criadores de conteúdo, composto majoritariamente por mulheres, tem ganhado tração nas redes sociais ao documentar a rotina de quem vive sem amigos e prioriza a solidão. O movimento, que surge como um contraponto ao estilo de vida hiperglamourizado da internet, foca em rituais diários de autocuidado e na valorização da paz individual.
Lana Isa, gerente de vendas de software em Toronto, no Canadá, é um dos nomes de destaque dessa tendência. Com quase 400 mil seguidores entre TikTok e Instagram, Isa compartilha vídeos de sua sexta-feira à noite — que inclui refeições simples e momentos de quietude em seu apartamento — e registros de passeios solitários a restaurantes de fast food ou sessões de leitura. Para a criadora, a ausência de amizades próximas é uma realidade consolidada após sucessivas trocas de escola no ensino médio, o isolamento durante a faculdade devido à pandemia de covid e a mudança de cidade após o fim de um relacionamento.
Reações e o estigma da solidão
A exposição dessa realidade gerou uma conexão imediata com milhares de usuários, mas também atraiu críticas. Enquanto muitos encontraram conforto ao se sentirem representados, outros apelidaram as criadoras de "influenciadoras da solidão", associando o estilo de vida a crises pessoais ou ao incentivo de um "derrotismo complacente".
Devon Noehring, residente de Phoenix, Arizona, refuta a ideia de que passar fins de semana sozinha com seu cachorro seja um sintoma de tristeza. Noehring, que se define como introvertida e lidou com ansiedade social na juventude, argumenta que existe um estigma equivocado que funde o ato de estar sozinho com a sensação de solidão.
No Reino Unido, SJ Hoadley também documenta sua trajetória. Após encerrar um relacionamento abusivo de sete anos e mudar-se para um local onde não conhecia ninguém, ela passou a abraçar a independência e a própria companhia, observando que a falta de amigos costuma incomodar mais terceiros do que a ela mesma.
Perspectiva acadêmica e saúde mental
Especialistas buscam diferenciar a solidão crônica, imposta por circunstâncias externas, da escolha autônoma de passar tempo sozinho. A professora Melody Ding, epidemiologista da Universidade de Sydney, explica que a pressão social para estar constantemente conectado e feliz pode criar expectativas irreais. No entanto, ela ressalta que, embora a solitude possa parecer atraente em vídeos, a conexão social humana é essencial, e o isolamento intenso pode prejudicar a saúde física e mental.
Já Anne Oeldorf-Hirsch, da Universidade de Connecticut, analisa que esse conteúdo supre uma necessidade de autenticidade. Em um ambiente dominado pelo FOMO (fear of missing out), a validação de vidas comuns e solitárias serve como um equilíbrio para quem não se identifica com a cultura de influenciadores tradicionais.
Apesar de valorizarem a autonomia, as criadoras não aspiram ao isolamento permanente. O apoio recebido nas redes sociais tem servido de estímulo para que Isa e Hoadley considerem a formação de novos laços sociais e amizades no futuro, enquanto Noehring planeja organizar encontros presenciais com sua comunidade virtual.