Mundo

OMS declara emergência de saúde pública internacional por surto de variante rara do ebola

26 de Maio de 2026 às 15:09

A variante Bundibugyo do vírus ebola atinge a República Democrática do Congo e Uganda, com cerca de 900 casos suspeitos e mais de 200 mortes. A OMS declarou emergência de saúde pública internacional em 17 de maio devido à letalidade e à propagação da cepa. O cenário coincide com cortes de verbas externas dos Estados Unidos e a saída do país da OMS

OMS declara emergência de saúde pública internacional por surto de variante rara do ebola
GLODY MURHABAZI / AFP

Um surto da variante Bundibugyo do vírus ebola, cepa rara e sem vacina ou medicamentos disponíveis, espalha-se pelo leste da República Democrática do Congo e em Uganda. Com uma taxa de mortalidade que atinge um em cada três infectados, a epidemia é considerada a mais letal já registrada para essa variante, que foi identificada originalmente em 2007. Até segunda-feira (25), a Organização Mundial da Saúde (OMS) contabilizou cerca de 900 casos suspeitos, enquanto autoridades congolesas reportam mais de 200 mortes.

A gravidade do cenário levou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, a declarar emergência de saúde pública internacional em 17 de maio. A decisão ocorreu sem a consulta prévia a especialistas, pois evidências indicavam que o vírus circulava há semanas sem detecção. Tedros manifestou preocupação com a velocidade da propagação e alertou que os números de infectados devem subir à medida que a vigilância, os testes laboratoriais e o rastreamento de contatos sejam ampliados.

A resposta ao surto ocorre em meio a uma crise de financiamento humanitário global. O governo de Donald Trump, após retomar a presidência em janeiro de 2025, implementou cortes drásticos na ajuda externa. A agência USAid teve repasses suspensos por 90 dias, com a demissão de funcionários e a redução temporária de 90% de seus recursos. Paralelamente, os Estados Unidos formalizaram a saída da OMS, organização à qual destinavam mais de 1,2 bilhão de dólares entre 2023 e 2024. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) também sofreu perdas, com a demissão de 25% do pessoal e o cancelamento de 35% dos contratos em 2025.

Essas medidas, que incluíram a atuação de Elon Musk no Departamento de Eficiência Governamental (Doge) — que admitiu ter encerrado programas de combate ao ebola por equívoco em fevereiro de 2025 —, impactaram a infraestrutura de saúde na região. O Comitê Internacional de Resgate relatou que a redução de verbas forçou a diminuição de atividades preventivas na província de Ituri, deixando a área vulnerável.

Para o epidemiologista Eric Feigl-Ding, a propagação atual é mais rápida que a do surto de 2014 na África Ocidental, e os casos confirmados representam apenas uma fração do total, dado que o vírus já atingiu profissionais de saúde. Matthew Kavanagh, da Universidade de Georgetown, reforça que o desmonte de programas de linha de frente da USAid e a retirada de verbas da OMS comprometeram a detecção precoce do vírus.

A disseminação é dificultada por fatores geográficos e políticos. A diretora da ONG Ação contra a Fome na República Democrática do Congo, Julie Drouet, pontuou que a raridade da variante Bundibugyo dificultou a detecção inicial nos testes e que os primeiros casos surgiram em áreas remotas. Além disso, a instabilidade no leste do Congo, nas províncias de Ituri, Kivu do Norte e Kivu do Sul, onde grupos armados atuam e a população se desloca constantemente, prejudica o controle sanitário. O risco de expansão é ampliado pela presença do vírus em centros densamente povoados, como a capital de Uganda, Kampala, e a cidade de Goma, no Congo.

O governo americano nega que as reformas na USAid tenham prejudicado a resposta ao ebola. O porta-voz do Departamento de Estado, Tommy Pigott, classificou a afirmação como falsa, e o órgão anunciou o financiamento de até 50 clínicas de tratamento nas duas nações afetadas. Por outro lado, o secretário de Estado, Marco Rubio, criticou a demora da OMS em identificar o surto, argumento rebatido por Tedros, que afirmou que a agência apoia os países, mas não substitui as responsabilidades governamentais locais.

Atualmente, a OMS liberou 3,9 milhões de dólares para suporte aos sistemas de saúde locais, enquanto equipes médicas tentam conter a doença por meio de pontes aéreas humanitárias. Especialistas alertam que a contenção da variante, que ocorre por contato direto com fluidos de infectados, depende de quarentenas e testagem rápida, demandando a ampliação do financiamento global.

Notícias Relacionadas