Pacientes processam hospital no Reino Unido por tratamentos oncológicos desnecessários e diagnósticos equivocados
Mais de 40 pacientes processam o University Hospitals Coventry and Warwickshire NHS Trust, no Reino Unido, por tratamentos oncológicos desnecessários. Uma investigação do Royal College of Physicians apontou falhas institucionais e diagnósticos equivocados, como o de uma paciente que recebeu quimioterapia por 11 anos sem ter câncer. O hospital implementou supervisão rigorosa na prescrição de medicamentos e realizará uma revisão de seus processos internos
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Mais de 40 pacientes entraram com uma ação judicial contra o University Hospitals Coventry and Warwickshire (UHCW) NHS Trust, no Reino Unido, após serem submetidos a tratamentos oncológicos prolongados e desnecessários. Entre as vítimas está Becky Jones, que, aos 21 anos, recebeu um diagnóstico equivocado de tumor cerebral terminal, sendo informada de que teria apenas alguns meses de vida.
A paciente foi submetida a 11 anos de quimioterapia com o medicamento temozolomida (TMZ), sob a supervisão do médico Ian Brown. Embora as diretrizes médicas recomendem seis ciclos do fármaco ao longo de seis meses, Jones foi instruída a utilizá-lo permanentemente. Mesmo diante de exames de imagem que não indicavam a presença de neoplasia, o especialista alegava que a patologia não seria visível a olho nu.
Impactos à saúde e qualidade de vida
O tratamento inadequado causou danos severos à saúde de Jones, que relatou náuseas constantes, fadiga crônica, úlceras bucais e dores abdominais. A condição afetou sua vida profissional e social, resultando na restrição de sua carteira de motorista e no isolamento de eventos familiares por medo de infecções. Na época, a paciente também foi informada de que seria estéril, embora tenha vindo a ter dois filhos posteriormente.
Outros pacientes sob os cuidados de Brown relataram consequências graves decorrentes do uso prolongado de TMZ, incluindo casos de leucemia após a realização de 100 ciclos desnecessários e a perda da fertilidade.
Erro de diagnóstico e investigação
A verdade sobre o estado de saúde de Jones veio à tona apenas em 2025, após uma análise independente conduzida por radiologistas e neurocirurgiões. O diagnóstico correto revelou que a paciente nunca teve câncer, mas sim uma desmielinização tumefativa — uma inflamação no cérebro que deveria ter sido tratada com corticoides, e não com quimioterapia.
Uma investigação preliminar do Royal College of Physicians (RCP) analisou 20 casos relacionados ao médico, classificados no relatório como "Dr. Y", e considerou 15 deles insatisfatórios. O órgão concluiu que:
- Houve a prescrição rotineira de tratamentos prolongados sem evidências de benefício;
- A equipe do hospital falhou ao não questionar a manutenção de quimioterapia oral por períodos de 10 a 15 anos;
- Houve falta de colaboração entre especialidades e "curiosidade clínica insuficiente", permitindo a persistência de erros diagnósticos.
O RCP definiu as falhas da instituição como uma "traição da confiança dos pacientes".
Posicionamento da instituição
O UHCW informou que implementou medidas para garantir uma supervisão mais rigorosa na prescrição da temozolomida. Em nota, o hospital afirmou que todos os pacientes afetados passaram por avaliação de médicos experientes com planos de tratamento adequados.
A instituição também anunciou a realização de uma revisão independente de seus processos internos para incentivar que funcionários relatem preocupações e assegurou que analisará a íntegra do relatório do RCP assim que for publicado.