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Pais de vítima de feminicídio utilizam a justiça restaurativa para perdoar o agressor da filha

12 de Maio de 2026 às 06:20

Kate e Andy Grosmaire, residentes da Flórida, aplicaram a justiça restaurativa após o namorado de sua filha, Conor McBride, matá-la a tiros em 2010. O agressor optou por uma sentença de 20 anos, com 10 de liberdade condicional, incluindo trabalho voluntário e palestras sobre violência em relacionamentos

Pais de vítima de feminicídio utilizam a justiça restaurativa para perdoar o agressor da filha
Kate Grosmaire/Arquivo pessoal

Kate e Andy Grosmaire, residentes da Flórida, transformaram a tragédia da morte da filha caçula, Ann, em um exemplo de aplicação da justiça restaurativa e do perdão. Ann, que tinha 19 anos na época do crime, foi morta a tiros pelo namorado, Conor McBride, após uma discussão prolongada que começou durante a comemoração de conquistas acadêmicas da jovem na universidade, na primavera de 2010.

O conflito, que se estendeu por toda a noite e parte do dia seguinte, culminou no momento em que McBride utilizou a espingarda do pai. Após a disparada, o jovem se entregou imediatamente. Ann chegou a ser hospitalizada e mantida por aparelhos, mas os pais decidiram desligá-los dias depois. Ainda durante a internação da filha, Kate visitou Conor na prisão para expressar que ela e o marido o perdoavam, buscando encontrar paz diante da perda.

A família, que anteriormente via McBride como um rapaz educado e simpático — tendo inclusive acolhido o jovem em sua casa por três meses após ele ter sido expulso pelo próprio pai —, optou por seguir o caminho da justiça restaurativa. Esse processo permitiu que os pais de Ann dialogassem com o agressor sobre o impacto do crime, enquanto Conor assumia a responsabilidade e explicava as circunstâncias do ocorrido.

Com base nas sugestões de Kate e Andy, o promotor ofereceu a McBride a escolha entre uma pena de 25 anos ou uma sentença de 20 anos, com 10 anos de liberdade condicional. O condenado optou pela segunda alternativa, comprometendo-se a realizar trabalho voluntário ligado aos interesses de Ann, frequentar aulas de controle de raiva e palestrar sobre a violência em relacionamentos adolescentes.

Durante o período de reclusão, Conor atuou como assistente jurídico voluntário, ministrou aulas sobre responsabilidade e participou de produções audiovisuais contra a violência no namoro. Kate e Andy mantiveram contato frequente com ele por anos, via telefone, e-mail e visitas, embora a comunicação tenha cessado há alguns meses.

Para Kate, o perdão foi a ferramenta essencial para a cura emocional e para preservar a relação com as outras duas filhas, que tinham 21 e 25 anos na época do crime. Em carta escrita para o podcast Dear Daughter, da BBC World Service, ela reflete sobre a importância da comunicação aberta entre famílias de vítimas e autores de crimes, defendendo que a justiça restaurativa e a renúncia à amargura tornaram-se o legado de Ann.

A família mantém rituais anuais para preservar a memória da jovem, como a celebração de seu aniversário e a inclusão de sua meia nas decorações de Natal, transformando a ausência em um movimento de defesa da paz e da superação.

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