Papa Leão XIV visita Lampedusa para homenagear migrantes e defender a dignidade humana
O Papa Leão XIV visitou a ilha de Lampedusa no último sábado (4) para homenagear migrantes mortos no Mediterrâneo. Durante a viagem, o pontífice celebrou missa, depositou flores em um cemitério e defendeu a assistência aos imigrantes
O Papa Leão XIV visitou a ilha de Lampedusa, na Sicília, no último sábado (4), para prestar homenagem a milhares de migrantes que morreram ao tentar chegar à Europa. A escolha da data e do local carrega um forte simbolismo, ocorrendo simultaneamente às celebrações do 250º aniversário da Declaração de Independência dos Estados Unidos. O pontífice, que é o primeiro papa nascido em território americano, utilizou a viagem para reforçar a obrigação cristã de defender a dignidade humana e lembrar que a fundação dos EUA foi construída por imigrantes.
Lampedusa, uma faixa de rocha de 9 quilômetros situada mais próxima da África do que da Itália continental, funciona como a principal porta de entrada europeia para pessoas vindas da Tunísia e da Líbia, muitas vezes via tráfico humano. Durante a visita, Leão XIV depositou flores em um cemitério de migrantes, onde as sepulturas são marcadas por cruzes feitas com restos de barcos naufragados. O Papa também abençoou a placa da doca dedicada ao Papa Francisco — que visitou a região em 2013 — e celebrou uma missa solene para residentes e recém-chegados.
A ação do pontífice ocorre em um contexto de tensões com o governo de Donald Trump, especialmente devido às políticas de imigração e aos programas de deportação em massa em Chicago, cidade natal do Papa. Em carta enviada aos americanos no feriado de 4 de julho, Leão XIV defendeu que a proteção da vida humana deve incluir o acolhimento e a assistência aos imigrantes.
Na Europa, Lampedusa é considerada o centro do debate migratório, onde o continente tenta equilibrar o policiamento de fronteiras com a obrigação legal de acolher refugiados que fogem da pobreza, de crises climáticas e de conflitos. Em sua homilia, o Papa instou os líderes europeus a adotarem estratégias abrangentes que integrem o auxílio imediato a planos de longo prazo para a integração dos migrantes, além do desenvolvimento dos países de origem para evitar a migração forçada.
Dados do Ministério do Interior da Itália indicam que houve uma queda nas chegadas ao país, com 14.464 registros até a última sexta-feira, contra 30.598 no mesmo período do ano anterior e 26.202 em 2024. No entanto, a Organização Internacional para as Migrações (OIM) alerta que a vulnerabilidade persiste. Desde 2014, mais de 35 mil desaparecidos foram registrados no Mediterrâneo, embora o número real de óbitos seja superior devido a naufrágios não documentados. Salvatore Sortino, chefe de missão da OIM para Itália e Malta, ressaltou que a redução no volume de chegadas não resultou em menos mortes no mar.
A visita é vista por representantes de vítimas, como Tareke Brhane, presidente do Comitê 3 de Outubro, como um apoio à luta pelo registro oficial dos falecidos. O gesto de Leão XIV segue a linha de Francisco, que priorizou a causa dos refugiados e denunciou a "globalização da indiferença". O pontífice também já havia visitado as Ilhas Canárias, na Espanha, no mês passado, para criticar a indiferença de líderes que rejeitam migrantes e condenar a exploração realizada por traficantes de pessoas.