Paraguai investe apenas 4% do PIB em saúde enquanto recomendação para cobertura universal é 6%
O Paraguai investe 4% do PIB em saúde, índice inferior aos 6% recomendados, resultando em falta de insumos e dependência da rede pública por quase 70% da população. O governo anunciou US$ 500 milhões para reformas, enquanto médicos planejam greve nacional em 24 de agosto
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A precariedade do sistema de saúde no Paraguai tem levado cidadãos a recorrerem a métodos desesperados para garantir a sobrevivência de familiares. O cenário é marcado por falta de insumos básicos, subfinanciamento crônico e uma estrutura fragmentada que empurra a população para a pobreza em busca de assistência médica.
Um exemplo recente é o de Daniela Benítez, artesã do povo indígena Nivaclé. Ao internar a filha, María del Pilar, em um hospital público de Assunção, Daniela precisou comprar do próprio bolso itens como cânulas, respiradores e algodão, gastando mais de US$ 800 (aproximadamente R$ 4.000). A família, sem recursos, organizou rifas com doações de joias de conhecidos para custear os equipamentos. María del Pilar, que sofria de pneumonia causada por tuberculose, morreu após um ano de internação.
Subfinanciamento e desigualdade regional
A crise não atinge apenas as camadas mais pobres. O goleiro da seleção paraguaia, Orlando Gill, precisou vender roupas, chuteiras e uniformes da seleção sub-20 para pagar o tratamento do filho recém-nascido, fruto de um parto prematuro.
Dados da Anistia Internacional e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) revelam que o Paraguai investe apenas 4% do seu Produto Interno Bruto (PIB) em saúde, valor inferior aos 6% recomendados para a cobertura universal. Em comparação, o Uruguai destina 6,3% e a Argentina 5,8%.
A dependência da rede pública é massiva: quase 70% da população não possui plano de saúde. Nas áreas rurais, como no Chaco paraguaio, esse índice sobe para 82%. A distância dos centros urbanos agrava a situação, tornando o acesso a cuidados básicos quase impossível fora da capital.
Estrutura do sistema e gargalos de gestão
O modelo de saúde paraguaio é dividido em três frentes:
- Ministério da Saúde Pública e Bem-Estar Social: Atendimento universal e gratuito.
- Instituto de Previdência Social (IPS): Financiado por trabalhadores com vínculo formal.
- Setor Privado: Seguradoras e clínicas particulares.
Apesar da divisão, a rede é criticada por ser fragmentada e desarticulada, o que gera duplicidade de gastos e falta de coordenação. O governo do presidente Santiago Peña admitiu que a saúde pública é a principal pendência de sua gestão. Embora tenha anunciado investimentos de US$ 500 milhões através do programa Paraguai Saudável para digitalização de prontuários e reforma de hospitais, a categoria médica afirma que as medidas não resolvem a falta de remédios nem a sobrecarga profissional.
O Sindicato dos Médicos do Paraguai prevê uma greve nacional de cinco dias em 24 de agosto para exigir reajustes salariais e melhores condições de trabalho.
O paradoxo econômico e a barreira tributária
A crise sanitária contrasta com o vigor econômico do país, que registrou crescimento de 6,6% do PIB em 2025. O Paraguai é conhecido globalmente pela baixa carga tributária, operando sob a regra do "10-10-10" (alíquotas de 10% para IVA, renda física e empresarial), a segunda menor da América Latina.
Existe um debate sobre se o aumento de impostos poderia financiar a saúde, mas há forte resistência popular devido à corrupção. Para profissionais da área, o problema não é apenas a arrecadação, mas a gestão dos recursos, evidenciada por uma dívida de US$ 1 bilhão com fornecedores e farmacêuticas.
Impactos sociais e migração sanitária
A incapacidade do Estado em prover assistência básica gera a "pobreza por saúde", onde famílias se endividam ou perdem bens para tratar doenças agudas ou crônicas.
Historicamente, muitos paraguaios buscavam socorro em hospitais públicos da Argentina, especificamente na província de Formosa. No entanto, desde maio de 2025, o governo de Javier Milei impôs restrições ao acesso de estrangeiros sem residência permanente aos serviços de saúde argentinos, fechando mais uma porta para os pacientes paraguaios.