Praias de Odessa seguem lotadas apesar de ataques russos e alertas frequentes de mísseis
A cidade de Odessa, na Ucrânia, mantém praias e serviços turísticos ativos apesar de ataques russos que causaram 13 mortes entre 19 e 21 de julho. A região enfrenta inflação, cortes de energia e a remoção de monumentos russos sob a Lei de Descolonização de 2023
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A cidade de Odessa, principal polo turístico e centro de transportes da Ucrânia no noroeste do Mar Negro, vive um cenário de contrastes profundos. Mesmo sob a ameaça constante de ataques russos, o balneário mantém praias lotadas e um setor de serviços aquecido, evidenciando uma convivência surreal entre o lazer de luxo e a iminência da morte.
Impacto da guerra e a rotina de bombardeios
A instabilidade na região é marcada por ataques frequentes. No domingo, 19 de julho, mísseis russos atingiram as proximidades do porto de Odessa, resultando em dez mortes. A violência persistiu na segunda-feira, 20 de julho, com mais três vítimas, e atingiu o centro histórico no dia seguinte.
Diferente da capital Kiev, as sirenes de alerta em Odessa soam entre quatro e seis vezes por dia, inclusive durante a noite. Apesar dos danos graves, especialmente na zona portuária, a população e os turistas demonstram certa indiferença. Nas praias, é comum observar pessoas assistindo ao trajeto de mísseis no céu sem buscar abrigo imediato, já que os refúgios oficiais exigem cerca de dez minutos de caminhada.
Economia de guerra e turismo de luxo
O custo de vida na cidade disparou. Uma viagem de ida e volta partindo de Kiev custa aproximadamente US$ 130 (R$ 722) devido ao preço elevado da gasolina, embora a rodovia entre as duas cidades tenha sido recuperada.
Para quem visita a cidade, os gastos de "classe média" para um casal durante três dias giram em torno de US$ 1.000 (R$ 5.552). A gastronomia local, que valoriza produtos típicos como o forshmak (prato de arenque) e os tomates Mikado, reflete essa inflação: um jantar simples para duas pessoas custa cerca de US$ 50 (R$ 278), e a alta demanda exige reservas antecipadas nos restaurantes.
Geografia e riscos costeiros
A reabertura oficial das praias este ano trouxe de volta a movimentação de famílias e vendedores de comidas típicas, como baklava e rapanas. A segurança dos banhistas é parcialmente garantida por quebra-mares que impedem a chegada de minas marítimas à areia.
Contudo, em locais como Sanzhiyka, onde há a presença de glampings (acampamentos de luxo) e bares, a ausência de píeres torna o mar aberto vulnerável à chegada de minas, elevando o risco para quem decide entrar na água.
Identidade cultural e tensões políticas
Com mais de 1 milhão de habitantes, Odessa é descrita como a "pérola do mar Negro" por sua arquitetura de influência francesa e italiana. A cidade possui raízes russas profundas, ligadas a eventos como o levante de 1905 — que envolveu o encouraçado Potemkin e resultou na morte de mil pessoas — e a resistência de 73 dias contra tropas alemãs e romenas em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial.
Atualmente, esse vínculo histórico é alvo de transformações. Sob a Lei de Descolonização de 2023, a cidade removeu monumentos à imperatriz Catarina, a Grande, e rebatizou vias: a rua Pushkin tornou-se rua Italiana, e a rua Catarina passou a ser rua Europeia.
O governador da região, Oleh Kiper, afirma que a agressão russa tem forçado a população a questionar a real necessidade de vínculos com a Rússia. Enquanto isso, o uso do idioma ucraniano é incentivado em um ambiente onde o russo ainda predomina.
Infraestrutura e resiliência
A cidade enfrenta apagões noturnos devido a cortes de energia causados pelo conflito, cenário que torna onipresente o ruído de geradores elétricos. Mesmo no escuro e sob o som da defesa antiaérea, a vida cultural persiste com apresentações de músicos de rua no centro urbano.