Projeto na Espanha busca conciliar a preservação do lobo com a atividade de pecuária
Um projeto na Espanha, financiado pela ILUNION Hotels, utiliza tecnologia para mediar o conflito entre a pecuária e o lobo. A iniciativa implementa fases de observação e prevenção para reduzir ataques ao gado, relacionando a vulnerabilidade das fazendas à gestão do rebanho. O naturalista Antonio Herrero propõe que subsídios e indenizações públicas sejam condicionados à adoção de medidas técnicas de proteção
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Um projeto inédito na Espanha busca solucionar o conflito histórico entre a pecuária e a preservação do lobo, focando na gestão eficiente do gado para viabilizar a coexistência entre a espécie e os criadores. Coordenada por Antonio Herrero, naturalista e ex-militar com vasta experiência na Serra de la Culebra, em Zamorá, a iniciativa visa transformar a relação com o animal, afastando a discussão de polarizações políticas para focar em soluções técnicas e práticas.
O projeto conta com o apoio financeiro e estrutural da ILUNION Hotels, empresa ligada à ONCE. A parceria surgiu de uma analogia proposta pelo CEO da rede, José Ángel Preciados, que comparou a marginalização social de pessoas com deficiência à rejeição enfrentada pelo lobo. Com esse investimento, a equipe — composta por Herrero, um licenciado em Meio Ambiente e três guias de natureza — utiliza tecnologia de ponta, como câmeras térmicas, visores térmicos e foto-armadilhas com envio remoto de imagens.
Metodologia e fases de implementação
A iniciativa funciona como um laboratório de campo dividido em três etapas anuais. No primeiro ano, o foco é a observação e a identificação das matilhas que atacam o gado e os motivos desses incidentes. A segunda fase consiste na aplicação de medidas preventivas, enquanto o terceiro ano será dedicado à avaliação dos dados para verificar a redução dos ataques.
O trabalho já apresenta conclusões preliminares, documentadas em relatórios semestrais entregues à Junta de Castilla y León. As observações de campo revelam que a incidência de ataques varia drasticamente conforme a gestão da fazenda:
- Alta vulnerabilidade: Propriedades com baixa presença humana, ausência de cercas e falta de cães de guarda.
- Baixa vulnerabilidade: Criadores que mantêm presença constante no campo e utilizam cães de pastoreio e mastins.
- Fatores externos: Propriedades situadas em zonas de reprodução do lobo tendem a sofrer mais ataques, independentemente das medidas preventivas.
Impacto ambiental e a questão dos subsídios
Um fator crítico identificado pelo projeto é a relação entre os incêndios florestais e o comportamento do predador. Após as queimadas de 2022, a perda de cobertura vegetal dificultou a caça de veados, principal presa do lobo. Em áreas abertas, o animal encontra maior dificuldade para surpreender presas silvestres, o que torna os bezerros um alvo mais acessível e atraente.
Além da parte técnica, Herrero propõe uma revisão no sistema de subsídios e indenizações públicas. O naturalista argumenta que as ajudas financeiras para a compra de gado devem obrigatoriamente incluir a implementação de medidas preventivas, evitando que o subsídio incentive a negligência na proteção dos animais.
No que tange às indenizações por perdas, a proposta é que a administração pública utilize os relatórios de campo para verificar se o criador adotou as recomendações técnicas. Caso seja comprovada a imprudência ou a má prática na gestão do rebanho, a indenização poderia ser negada.
Expansão e contexto populacional
Atualmente, a Espanha possui 333 matilhas censadas, um crescimento de 12% em relação à década anterior. A população, concentrada no noroeste, expande-se para o centro da península. Esse cenário é agravado pela possibilidade de caça no norte do rio Duero a partir de 2025, devido à retirada da proteção especial da espécie.
Embora o projeto esteja centrado na Serra de la Culebra, as conclusões podem ser aplicadas a regiões com criações extensivas, como Astúrias e Galiza. No entanto, Herrero ressalta que a estratégia deve ser adaptada a cada realidade, citando que em grandes fazendas fechadas, como as da Serra de Guadarrama, o comportamento do lobo e a dinâmica dos ataques são distintos, exigindo abordagens específicas.