Recuo de águas após rompimento de barragem na Ucrânia propicia surgimento de floresta espontânea
A destruição da barragem de Kakhovka, na Ucrânia, resultou no surgimento de uma floresta espontânea em mais de 2.000 quilômetros quadrados. A área apresenta recuperação da biodiversidade, mas contém cerca de 1,5 quilômetros cúbicos de sedimentos tóxicos. A região integra áreas protegidas, embora a empresa Ukrhydroenergo pretenda reconstruir a estrutura
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A destruição da barragem de Kakhovka, ocorrida em 6 de junho de 2023 no sul da Ucrânia, desencadeou uma transformação ecológica imprevista. O recuo das águas do rio Dniepr, após a explosão da estrutura que estava sob controle russo, deu lugar ao surgimento de uma floresta densa e espontânea em uma área de mais de 2.000 quilômetros quadrados que permaneceu submersa por décadas.
O processo de regeneração biológica ocorre na região de Velykyi Luh, onde milhões de plantas nativas, como salgueiros e álamos, brotaram sem intervenção humana. De acordo com o Ukrainian Nature Conservation Group, a área está se tornando a maior floresta de planícies aluviais da região estepária do país, permitindo o retorno de mamíferos, aves e peixes, incluindo o esturjão ucraniano, espécie que estava ameaçada.
Riscos ambientais e sanitários
Apesar da recuperação da fauna e flora, a exposição do leito do reservatório trouxe à tona ameaças graves. O acúmulo de sedimentos contaminados por resíduos industriais de fábricas situadas rio acima criou o que a revista Science classifica como uma bomba-relógio ambiental. Estima-se que existam mais de 1,5 quilômetros cúbicos de materiais tóxicos que podem causar alterações hormonais, danos pulmonares e câncer na população local.
A avaliação total desses impactos é dificultada por fatores de segurança, já que a presença de minas e a continuidade de bombardeios na zona impedem a realização de pesquisas científicas completas.
Futuro do ecossistema e compromissos internacionais
A preservação desse novo cenário natural enfrenta a possibilidade de reversão. A empresa estatal Ukrhydroenergo manifestou o interesse em reconstruir a barragem, o que inundaria novamente a região. Para defensores do meio ambiente, como Oleksiy Vasyliuk, a reconstrução da obra original configuraria um ecocídio, destruindo um experimento ecológico singular.
Atualmente, mais de 80% do território emergido integra áreas protegidas, inclusive a Rede Esmeralda europeia. A manutenção dessa biodiversidade é vista como um elemento estratégico para que a Ucrânia cumpra seus compromissos de resiliência ecológica e restauração fluvial junto à União Europeia.